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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mercados

mercado municipal de Vila Franca de Xira
A minha pobre cabeça anda atormentada a tentar acompanhar o ritmo alucinante a que se sucedem as 
mediatizações de ideias factos ou conceitos que actualmente se produzem.
Cai dentro desta malha o termo muito em voga que respigo a eito de entre muitos outros:
- OS MERCADOS.
Largamente difundido este conceito é utilizado como se de tremoços se tratasse. Do Ex.mo Sr. Ministro do Estado e das Finanças, ao próprio Primeiro Ministro, passando pelo mais indistinto e tirocinante jornalista, até aos especialistas da área de economia e comentadores a granel, todos falam deles, todos os invocam como místicos fundamentalistas, como se fosse uma coisa incontornável; idónea e omnipotente. OS MERCADOS….
Ora…. A boa verdade é que – MERCADOS – toda a gente sabe o que são. Eu por exemplo, supunha ingenuamente, que era por exemplo assim como o mercado de Vila Franca, com os seus bonitos painéis de azulejos e cuja funcionalidade é ser local de venda e compra de coisas. Inquiri ao Deus dará, mas nem a Ti Maria do peixe, nem a padeira algarvia, tão pouco a Mari’Carvalha, confessam ter sido elas a origem da coisa. Nisso foram unânimes: Só se foram as da Ribeira, daqui não foi ninguém…. Bom Tal como nos chapéus… Mercados também há muitos…. É só procurar. Eles há-os de várias formas e dignidades, como o mercado dos ciganos, do Relógio, dos capões… sei lá, que digo eu… são centenas e centenas deles. E servem, todos eles, para o mesmo. Para irmos às “mercas” e para a ASAE fazer o gosto ao dedo…
Só que do pouco que eu fui tirando de tanto ouvir falar deles, dos MERCADOS, percebi que não se tratava destes mercados, mas sim de outra coisa mais sofisticada. Mas como toda aquela gente falava daquilo como se fosse uma coisa evidente…. Eu não quis fazer-me desentendido, porque não sou menos que eles.
Redobrei a atenção e lá fui avolumando os conhecimentos tirando umas de outras. E juntando as partes ao todo. Aduzi então, que essa coisa dos ditos MERCADOS era, não uma, mas duas coisas. Por um lado os MERCADOS BOLSISTAS INTERNACIONAIS. E por outro O MERCADO FINANCEIRO INTERNACIONAL.
Sendo que um influencia o outro e vice-versa. Isto é:
- As BOLSAS traduzem o grau de confiança num determinado negócio ou Empresa ou tudo no seu conjunto, ou seja um país. E os BANCOS INTERNACIONAIS em função disso determinam o juro a que emprestarão o “caroço”, para o tal negócio, a tal Empresa ou país.
Parece simples e intuitivo. E qual será o grau de rigor do funcionamento deste sistema
Vejamos… Se o funcionamento das BOLSAS assentar as suas avaliações no juízo das pessoas que as frequentam, estamos mal, porque na sua maior parte, Deus Nosso Senhor, substituiu-lhes a inteligência pela GANÂNCIA?
E se para além disso, ou exactamente por causa disso, estes, viverem no permanente pavor de perder dinheiro, ou de não o ganhar? (para eles é o mesmo)
Então estes coelhos assustados, exactamente por o serem, farão normalmente, análises das situações políticas e económicas, com graves desvios. Isto por um lado.
Esse facto, (a avidez do lucro e o pavor de o perder) a que se junta um QI rasteirinho, leva-os a embarcar frequentemente em patranhas bem urdidas pelos espertalhaços do tal SISTEMA, especializados em faz de conta.
Sobra pois que, se as INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO INTERNACIONAIS, se baseiam nas operações que aqueles lorpas operam em Bolsa, Igualmente graves desvios devem haver nas suas decisões acerca do juro dos empréstimos, digo eu…
E não andarei muito longe da verdade se disser que os desvios, ou enganos, são sempre a seu favor. E contra os interesses dos seus clientes.
E se calhar também não estarei a adivinhar de mais se achar que essas INSTITUIÇOES têm ao seu serviço uma plêiade de especialistas (leia-se aldrabões) industriados em influenciar as “abéculas”em bolsa e virar os seus resultados no sentido mais conveniente para os seus patrões….
Um exemplo ao acaso:
- Há uns anos por alturas dos furacões nas Antilhas e costa Sueste dos EUA, alguma alma caridosa pôs a correr que haviam vários poços de extracção petrolífera off-shore na região, e que esse cenário de catástrofe iria provocar uma quebra na produção. Os tolos nem se deram ao trabalho de investigar um pouco a verosimilhança da “dica”. De imediato se deu uma corrida à compra de acções, porque com menor oferta, sobe a procura e isso significa mais “carcanhois” e mais-valias ao alcance da mão.
Como o furacão passou ao lado, como estava previsto, não foi “golo”. A bola foi à “trave”….
Claro que neste intervalo muitos milhões mudaram de mãos.
Eu só queria um décimo, não desses milhões, mas do que os tristes pardalitos por essas bolsas fora, gastaram em solas de sapatos no seu corre-corre a tentar não perder o comboio.
E SIM… Também nós pobres tolos, é verdade que acabamos por pagar todos, um pouco mais caro do que era devido pela gasolina para os nossos pó-pós.
Pensar eu que é isto que comanda os destinos das economias entristece-me e preocupa-me.
ENTRISTECE-ME por ver pessoas com tão bom ar, tão compenetrados e exalando sisudez por todos os poros, e que em última análise até são os nossos legítimos representantes - Os senhores: Primeiro-ministro e o das Finanças e até o nosso Presidente, (essa alma unívoca, ímpar) - a fazerem estes ridículos e lamentáveis papéis de “meninos bem comportados” para que os tubarões que manipulam este jogo, não nos aparem as asas e assim se perca ainda mais do que já deixaram que se perdesse….
E PREOCUPA-ME porque não se pode esperar nada de bom deste autêntico “nonsense” que ao fim e ao cabo É aquilo a que chamam: A mola real da economia global.
Ao invés trata-se de uma realidade virtual de um faz de conta, mas da qual, perversão das perversões… Os efeitos quase sempre nefastos, são bem reais… E a tal ponto o são, que “a bolha rebentou” (termo que foi usado para o recente estoiro do SISTEMA que abriu a crise que ainda persiste) ….. Preocupante!
Esta, até há pouco tempo inimaginável, inversão de valores no exacto seio do capitalismo internacional, que como é sabido assentava a criação das mais-valias na valorização, de um qualquer produto, mediante a sua transformação em algo mais valioso, por via industrial ou outra, hoje assenta na especulação bolsista. E foi tal a ganância, inflacionaram a tal ponto os negócios, que foi impossível esconder por mais tempo a falência do SISTEMA. E é exactamente uma derivação desse mesmo SISTEMA falido, que nos olha e avalia à lupa para dizer se sim ou não, somos um país viável… Ou devo dizer: APETECÍVEL….
Este SISTEMA, a que eufemísticamente chamam de: OS MERCADOS, não passa pois, de uma mistura não ponderada de uns quantos Chicos-espertos. A que se juntam muitos assustados coelhos. Imensos “tarantas” e acéfalos. E ainda uma pitada de “mongas” QB. Sendo que o traço grosso que a todos une, é a GANÂNCIA…
E “voilá”… Serve-se requentado…
Obrigado… Não tenho fome!!!!!!
   
                                                                      António Capucha

                                                        Vila Franca de Xira, Março de 2010
PS - Salvo da varridela de ficheiros. Apesar da data, ainda está fresco e na ordem do dia.....
                                                           

Colete encarnado, ou: A festa do pau caiado...

Matarroanos com toucas bizarras


  Há uns anos Fiz esta descrição jocosa da festa maior da nossa terra, a uma Srª. "manfreda" que não é de cá. Hoje andava eu a "varrer" ficheiros antigos e dei com ela. Embora a destempo, achei-lhe tanta graça, perdoem-me a presunção, que não resisto a torná-la pública.
António Capucha
Colete encarnado, ou a festa do pau caiado...
Festa de lôgros, a começar logo pelo nome.... Se não vejamos: Como é que, para uma festa EN-CARNADA, se escolhe como dieta principal um peixe.... Claro que, por muita febra de porco, e das outras, que por aí andem, paradas ou em movimento, temperadas ou desenxabidas, é a sardinha a rainha do deixar-se comer.... Em cama de pão ou só por si, supera nestes dias umas tais febras fatigadas de tanta mastigação síncopada a dois tempos: Em cima...Em baixo.... Insiste... Insiste.... 
Quem não se safa é a sarda, p'ra cuja não há pai, e a carne de vaca que com muito cabelo e cornos que nunca mais acaba, anda numa doideira a correr atrás dos cavalos que em vez de índios em cima, trazem uns matarruanos com umas toucas bizarras e com umas vestes tão coloridas como as do "Pai Natal" e com uma tara qualquer que, compulsivamente, os traz agarrados ao pau,.....
De resto, não te sei dizer grande coisa..... Vivo aqui há mais anos que o Cavaco leva de Professor, e ainda não consegui entender esta festa em toda a sua extensão. Mas a avaliar pelo número de pessoas que precisam de se "enfrascar" para aturar a estucha, é um tanto cócó.....
Pois é.... Estão verdes, não prestam!!!!
                                                                Zé Pilantra Salsifré
                                                         Cá se fazem, cá se pagam...                       
           António Capucha
Algures no início do Século XXI





domingo, 10 de outubro de 2010

Na cama, Ou as perturbações do sono



O sono é algo tão volátil que qualquer quase nada o perturba. Do ponto de vista médico o sono é um mecanismo de regeneração do corpo e espírito…. Seja lá isso o que for.
Do nosso ponto de vista, é para ums,  um prazer e para outros,  uma perda de tempo.
Civilizados que fomos sendo, há hoje uma verdadeira cultura do sono. Senão vejamos:
Há horas próprias para o seu exercício.
Há roupa própria para o fazer e por mais estranho que pareça, há metodologias complicadíssimas para satisfazer esta cultura do descanso.
Há sítios próprios para o fazer: As camas. Mas ir para a cama, nem sempre quer dizer que se vá dormir. Há uma variante : O Sofá…. Que é onde os maridos culpados espiam as culpas de elas se sentirem gordas, ou feias, ou ambas as coisas.
E por fim o quarto, que tem como as outras divisões da casa quatro paredes. Mas é o único espaço apelidado de: QUARTO…. Nem sequer é o ultimo, isto é, o quarto da ordem de importância das habitações modernas. Cuja hierarquia começa em Primeiro lugar pela nobreza da SALA; SALA de JANTAR; QUARTOS 1,2 ou 3; COZINHA e por último o 18, ou WC, que em regra fica ao fundo do corredor à esquerda e é o menos nobre de todos pois fica imediatamente antes do ignominioso esgoto….. Coisa réles. O Olho do cu das casas modernas!!!! (Não há nada a fazer…. È por aqui que a peroração me trás. E é por aqui que vou!!!)
Fixemo-nos no quarto que afinal é o terceiro da ordem. Há ainda uma subdivisão que importa fazer no capítulo dos quartos.  O quarto das crianças, por exemplo é definitivamente local de bagunça e barulheira infernal, a ponto de disputar o fim da escala ao 18. Já o chamado quarto de Casal é apenas comparável a uma “catedral”, onde, haja quantas, e de que forma forem as “negas”, Será sempre templo de amor. O que requer vários procedimentos e rituais a montante e jusante dele. 
 As “meséles” penteiam as melenas e aplicam as mistelas de noite para a sua pele ficar a descansar com mais eficácia. Após o que se deitam, Numa rigorosa “esquadria múmica” para não perturbar o efeito dos unguentos.
E os homens entram já de tripa aliviada, pés e cara lavada e pijama abotoado até aos gorgomilos…. E língua atada para nem entrar mosca nem sair bacorada. Por muito que se esforcem os homens nunca passarão de sacristães, onde elas são sacerdotisas…
Em último caso e não raro, quando o sacristão toca a campainha a destempo, ela aplica-lhe umas “galhetas”. Segundo a liturgia do Missal!!!!
Em determinadas regiões e noutras épocas, os paramentos da sacerdotisa consistiam numa túnica de linho, onde uma escassa abertura à altura da coisa, constituía o único acesso a contacto físico…. O resto era linho. O que levava, maridos desensofridos e descontentes com esta injustiça do sistema, a procurar mulheres desalinhadas, isto é : sem linho. E então era um desalinho…. Com ou sem cama no quarto ou na cozinha… até no WC. E até o esgoto marchava, se dela não houvesse recusa expressa.
Mas isso era em tempos idos…. Hoje o Sacristão já tem um sindicato e guerreia com a ordem das sacerdotisas e a coisa tem outros contornos. Quando não há acordo em vez do Anjo S. Gabriel, a juíza é a Tchitchiolina. O que garante algum arrojo nas decisões. Os seus seios desnudados confundem-se com os da República. O que veio conferir aos assuntos de cama,  um cariz político…. E a guerra dos sexos substitui a luta de classes. Sem aparente vantagem uma vez que não se percebe muito bem qual a classe dominante e qual a oprimida…. O que dá origem a muitas confusões….
Mesmo no caso de serem casados, há confusão. Se casados pela igreja e pese embora as patacoadas ditas um ao outro, e de aparentemente não haver “pão cozido para malucos”, tudo fica em “letra morta” e aos recém-casados, fica a faltar apenas uma oportunidade para mandar às urtigas tão veementes juras e tão salubres preceitos….  Que surge em regra quando o maridinho chega a casa e a vê recortada contra o espelho do quarto, quadris alçados e oscilantes, a encerar o chão. E lá se vai  a primeira das regras: Farás truca-truca apenas para procriar……
Viva mas é o prazer, morte ao sono e viva a desbunda…… (É pá … Já vais aí???? É onde a peroração me trás!!!!… Nada disto foi premeditado… Acreditem.)
No casamento civil, acreditem, que só falta distribuírem jacubinamente, um manual do “Kama-Sutra”, tal é a falta de obrigações dos nubentes….
Ora isto não são simples perturbações do sono. São mais a subversão total, tentada e conseguida, dos melhores valores da nossa civilização… Como por exemplo a do direito do senhor feudal dar a primeira “queca” na noiva dos servos, que lhe despertar a  cobiça. Ou a perturbação do sono….
Como se vê nada que nos tire o sono….
Uma última reflexão:
Se: - Quem boa cama faz nela se deita….. É para quê?????
Já não sei nada…. À cautela vou tomar uns drunfos para dormir, não vá o diabo tecê-las!!!!!

                             António Capucha
              Vila Franca de Xira, Outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

1ª República

 Muita gente , para não dizer toda a gente, que tem botado faladura acerca da 1ª República, refere a semelhança da situação política económica e social de então(1910) com a situação presente (2010).... O quadro que levou à falência da República é repetido quase tema por tema e compara com a anormalidade da situação presente. Diz-se que aparentemente não aprendemos nada. Mas pergunto eu, será que tal como então, não está a ser fácil substituir a complexa teia de poder da monarquia???? Sendo que a de hoje em dia, será a monarquia dos vencedores do 25 de Novembro de 75, cuja dinastia se estende até hoje. E tal como a do princípio do Século passado, também deixa atrás de si, uma senda de armadilhas e mares alterosos onde nem com o sextante se pode navegar.... A não ser os que têm o mapa do terreno minado..... Efectivamente os sucessivos governos do pós 25 de Abril, são de uma e da mesma família política, que roda entre si como uma dinastia monárquica!!! Isto apenas em termos de governação, que a classe emergente que de então para cá tem sustentado e mantido a seu favor a situação é uma classe de antigos "vilões", que fruto de diversas habilidades deram origem à aristocracia do 25 de Novembro, os actuais novos ricos , cujos, com o apoio da venalidade dos fazedores de opinião, têm mantido a ideia de que o vinte e cinco de Abril, e os erros dos seus militantes e apoiantes, é que são os culpados da situação em que nos encontramos.
É uma termenda velhacaria....Confundir a generosidade da revolução de Abril com o oportunismo desta aristocracia de novos ricos, broncos, alarves, ignorantes e cagões, como são sempre os broncos , alarves e ignorantes.
               António Capucha
Vila Franca de Xira , Outubro de 2010

D'onde menos se espera!!!

Uma parte de mim contorce-se, e a outra aplaude.... Não me interessa quem a diz .... A verdade é sempre um conceito fundamental sobre o qual assenta tudo o que se quer sólido e correctamente firmado. O nosso futuro colectivo é uma dessas coisas. Não tanto já o nosso sucesso financeiro e económico.... Isso são detalhes que acompanham, surgem como consequência da justeza com que a sociedade tem as suas fundação estabelecidas.Vale a pena ouvir até ao fim... Reparem no silêncio cerimonioso com que a locutora de serviço respeita o fruir do discurso notável do Frei Fernando Ventura.... É ainda por cima um notável exercício de honestidade intelectual, porque apenas no final e instado a tal pela locutora fala sobre a Igreja e o seu papel nisto tudo. Quem assim fala tem o direito inalienável a ser ouvido por inteiro.

 

o mito de Sísifo



O mito de Sísifo

Os nossos sentimentos, sobretudo aqueles de que se fazem as paixões e os nossos sonhos acordados, são tempestades tropicais pela sua violência e transitoriedade. O que me vale é que sou um navio de costado largo.
Conhecem a teoria do Caos? Aquela da borboleta que bate as asas no Japão e desencadeia uma tempestade nas Caraíbas.
Pois com estes dois seres, passa-se algo semelhante. Manuel e Joaquina, um pequeno nada deita tudo a perder. São porém, seres compatíveis quase que em justaposição. No entanto nunca foi possível que se entendessem nem nisto assim!!! Ambos são “low profile”e inteligentes. Ambos possuem a rara capacidade de se porem no lugar dos outros. Ambos se dão às mais diversas causas com generosidade e competência. Ambos partilham os amores e desamores em politica. Ambos têm as mesma malha de valores sociais e educacionais perante a vida e a religião etc….etc. Ambos gravitam à volta um do outro. Ambos recusam de forma sustentada serem o Sol seja de quem, e do que for. São porém e seguramente o Sol um do Outro. Atrevo-me eu a dizer que os conheço como as minhas mãos. Ele já acredita nisso vai para uns anos. Os homens são, apesar de menos atreitos ao romantismo de cordel, ou se calhar justamente por isso, são mais capazes de acções romanescas…. Lancinantes…. Arrebatadas. Ela pelo contrário, onde ele vê janelas de oportunidade, para a realização dos seus destinos paralelos, ela vê não se sabe bem, se passagens secretas de demónios ou  o buraco negro por onde se esvai a decência… Ele faz tudo ou quase tudo, menos o que provavelmente faria variar as coisas…. Ela simplesmente se esquiva assim sem cânticos de vitória, ao invés sobra-lhe sempre algum amargo de boca pela dor que adivinha causar-lhe.
Só que ele, parte de mim e eu próprio, por inteiro, atesto o que ficou dito e que sei ser a verdade emergente desta coisa, não perfaz a razão para que assim seja. Eu de fora, a este distância toda, o apenas eu, suponho, apercebo-me da dor de ambos, e nisso estou só, já que não tenho a certeza de que o Manuel saiba do sofrimento da Joaquina… Se bem que de sinal diferente, de dor não passa. E até a mim me dói estar a contá-la. É uma dor que transporto por mim e por ele, às costas como Sísifo transportava a pedra até ou cume do monte, para no final o ver regredir até ao princípio…. Quem a isso obriga (ela) escolhe suportar a consciência pesada…. O final funesto. E quem isso cumpre (Ele e eu) suporta a frustração constante e permanente. Quem isto observa, ou seja: Eu! Sofro por estar a ver a que tudo não passa de uma presunção absurda e que a solução está ali pujante e evidente à espera de ser tomada às colheradas. Farto de ver a pedra no cume e outras tantas vezes vê-la rebolar por ali abaixo…. Que desperdício….. Penso nisso muitas vezes. Onde há tanta coisa em comum, só se pode esperar cumplicidade, fusão, harmonia.
Acho eu mísero escriba desta tragédia grega, que só uma grande maldade justificará tantas penas e danos, tanto ranger de dentes, tanto sofrimento de ambos. Ainda se fosse só de um? Isso já seria normal….. É chato, mas o Mundo está cheio de chatices… É a vida!!!! Que como é sabido dá muitas voltas e quantas voltas deu!!!! E eu atento, à coca, das voltas da vida, à espera de um rasgo de felicidade, permaneço no meu posto de observador atento das coisas e mistérios…. Destes e de todos os seres humanos que trago espiados….. É um hábito que tenho desde muito novo, observar pessoas, adivinhando-lhes os jeitos e trejeitos. Rejubilar-me com as suas alegrias e vitórias e partilhar-lhes as tristezas, numa espécie de voyeurismo inocentado da coscuvilhiçe…. Estes dois: o Manuel e a Joaquina não são apenas mais dois…. Mas dão-me água p’la barba acho que terei perdido a esperança, de tantas vezes que o pedregulho rebolou do cume até ao sopé da montanha… Quando parecia que enfim lá ia ficar em cima…. Seria mais uma estaca espetada a direito no buraco negro e dos seus acólitos cinzentos. Porquê estes: Ora, porque sim. Aliás não sou eu que os escolho, são eles que escolhem meter-se-me pelos olhos adentro. Para os ter guardados aqui bem junto ao coração, só faço uma exigência: Tem que ser gente boa e inteligente…. Não perco tempo nem gasto neurónios com merdosos e chafurdas…… Lamento mas nisso sou irredutível…..

                                 António Capucha
                  Vila Franca de Xira, Outubro de 2010  

  

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Barbie


                                                                     BARBIE
Era uma vez uma menina que queria ser barbie. Digo querer, mas este querer era mais que a conta devida ao querer seja o que for. A criancinha queria tanto e com tal intensidade o queria, que se deveria dizer antes que tinha a obsessão de ser barbie. Sem desfalecimentos nem fraquezas, mantinha ao longo das horas; dias; meses; anos este lume a arder sempre à mesma altura.
Sem que se desse conta, as pernas já de si esguias como as da barbie, começaram a transformar-se em cloreto de poli-vinilo – o vulgar plástico. O seu desejo doentiamente sustentado começava a ultrapassar as leis da Física. O cabelo apresentava a consistência do nylon, e as pestanas reviradas e opulentas emolduravam os seus olhos de um azul celestial. Mas que serviam apenas para ser vistos…., assim deixaram de ver Ora a menina estava tão satisfeita de se estar a transformar em barbie que nem reparava que tinha deixado de sentir apetite, sede ou sono; calor ou frio etc…  e deixara de ver, ouvir e falar.…. são tudo sensações que deixou de sentir. Umas para seu alívio, por exemplo ela deixar de ouvir era um alívio porque nunca foi muito de dar ouvidos ao que lhe diziam, desde que continuasse a ouvir aquela voz dentro dela que repetia como o espelho mágico, sim és a mais bela sim tens o direito de fazeres só o que queres….. Outras para seu desgosto como o de ter deixado de ver a inveja estampada no rosto das outras raparigas que iam ficando adultas,  com as suas tetas descomunais e os seus quadris que pareciam uma praça de toiros…. De onde saíam  umas “pernonas” roliças, que mais pareciam carne pendurada num talho.  
Mas isso eram coisas que procurava não deixar que vencessem o seu prazer de ser barbie. Mas até as dúvidas em relação ao ser melhor ou pior que dantes, se começam a desvanecer.  Porque o cérebro que começou a plastificar-se, deixou também e progressivamente, de trabalhar e produzir fosse que pensamento fosse…. O seu último pensamento terá sido: Ora ….vou deixar de vir a ser velha e feia. O tempo passava inexorável e ela nem precisava de ter o seu retrato a envelhecer por ela no sótão como o Dorian Gray…. Pois ele que passasse e repassasse, que isso é que havia de lhe dar cá uns abalos! A sua juventude é total e absoluta.... uma flor sem tempo!!!!
Porém a ausência da consciência de ser, deu lugar a uma enorme confusão a que o seu feitio obstinado procurava ainda assim ordenar e organizar…. Em vão naturalmente. Até as sensações derivadas de se ter transformado em barbie deixaram de estar presentes. E daí até ao “click”  do disjuntor, após o qual deixou de todo de ter alguma consciência de ser ou ter sido algo, ser ou coisa…..
E é melhor ficar por aqui, porque o que é em rigor impossível, é escrever sobre nada….
ÁH!!!! Esta “Estória” é verdadeira….. Ou não será? Quantas meninas embarcam na vã senda de ser em Barbies para sempre, e se deixam escorregar até ao click final do qual não há regresso..... E ken's? também os há! Portanto também dava para começar assim:
-  Era uma vez um menino, que queria muito ser Ronaldo..... 
Meninas e meninos..... Atenção! Referencias  sedutoras que exijam total e exclusiva  dedicação, levam invariavelmente ao click final e sem retorno.....                        


                          António Capucha
                   Peniche, Outubro de 2010

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O vinho, ou a estranha dança

                      

  O vinho, ou a estranha dança
O título dizendo o que diz, fica bem equívoco. E é assim que eu gosto! Quando se espera que eu vá perorar sobre o vinho, bebida nacional de imerecida má fama, que tem servido a toda a casta de moralistas oportunistas e outros espertalhaços para apontarem o dedo - desporto nacional – aos incautos e cultores do bom beber e em simultâneo chamar a atenção para a sua própria virtude, geralmente falsa, mas que lhes faz um jeitão….. Alguns há, que até disso fazem vida….
Mas não!!!! Fiquem descansados que não vou fazer concorrência aos expert’s que deambulam portuguesmente sobre a matéria, e alguns até muito bem….. E já que não vou falar da bebida densa e ancestral podem também contar com o facto de a: Estranha dança, não ser dança nenhuma, nem ser motivada pelo vinho. Não vou também entrar em delírios concorrentes com a RTP ou a SIC que apostam na dança Para nos secarem as meninges…..
A verdade, verdadinha toda, é que felizmente tenho uma memória à prova de quase tudo e também não cultivo muito a distracção… De modo que….  eles nem sabem o mal que fizeram em sacrificar a nossa geração ao terror da guerra que aliás se cumpria desde o primeiro dia de tropa e estendia-se até ao último….. O que lhes terá escapado é que a coisa acabou por ser como, acho que já o disse noutra ocasião, uma montra da nossa sociedade, um museu vivo. Basta abrir a pestana e mantê-la aberta para enriquecermos mais, diria que exponencialmente, a nossa vida….. E isso sim era uma arma apontada ao coração - se é que o tinham - da nomenclatura do facho, e seus derivados….
O Vinho, era pois, em setenta e um, setenta e dois do Século passado, um garboso mancebo, que recebera essa alcunha obviamente por ser anti- abstémio militante. Lembro-o um mocetão largo e forte sem ser gordo e sem ser também muito alto. Vermelhusco nas faces e incrivelmente fogoso tipo Obelix…. Parco de palavras era no entanto alegre sem ser brilhante, mas agradável de um modo geral, devido à espontaneidade das suas reacções, a sua  alegria era quase infantil de tão autêntica.
Ora o Sr. Major Efectivamente, já nosso conhecido vem até à nossa companhia e entre outras coisas disse-me:
- Efectivamente a tropa anda ociosa e isso não é bom para ninguém!
Veja lá nas NEPES qual é instrução para os prontos e durante uns dias vamos fazer qualquer coisa que os ponha a mexer. E eu pensei cá para comigo: a mexer põem-se eles e mais depressa do que dá para ver….. Mas claro que não aduzi coisa alguma….. A não ser que iria tratar imediatamente disso. Obrigado, disse em resposta o Major.
Ora o que é que dizia o manual acerca de treino para aqueles mariolas! Tão só jogos! Disto e daquilo mas jogos…. Armado desses argumentos falei lá com os “Opinian macker’s” da rapaziada. Que sim senhor o homem até pediu….. É pá temos que fazer o que ele diz senão vem “p’ráí” um “Chico da merda” e estamos feitos…. Vá vejam lá se amanhã não batem todos a asa e ficam aí na formatura uns quantos para fazermos umas jogatanas…..
E assim se fez que na tropa a velhice é um posto. Os mais velhos seguraram os outros e lá fomos em formatura e tudo até ao campo de jogos. Fizemos questão de passar pelo Nosso Major Em continência a que ele correspondeu visivelmente satisfeito….
Uma vez no campo de jogos consultamos os folhetos e o que dava assim para fazer, dada a falta de material era a corda humana metade para cada lado a puxar…. a puxar….. até que uma equipa cedesse. E pronto….
Vamos começar…. quem escolhe primeiro é o Furriel mais velho…. Era eu e escolhi logo o Vinho…. Para além da sua força descomunal ele era também um dos indivíduos mais populares do regimento…. Os maçaricos olhavam para ele num misto de admiração e enjoo. E porquê? Porque aquela alma às refeições batia-se com o seu quinhão e ainda comia o que os vizinhos dispensavam. De modo que à mesa do Vinho estavam sempre éne terrinas de comida de qualidade duvidosa, mas que para ele não oferecia dúvida nenhuma! E todo o vinho que fosse possível arrebanhar. Vinho…. quer dizer!  Aquilo parecia mais decapante que outra coisa…. nada que o demovesse de o empinar todo….. Glu----glu.-----glu  cá vai à nossa….
Bom garantido o concurso do Vinho para o meu lado sabia ter as minhas chances. O que nem eu nem ninguém esperava foi o que se desenrolou na sequência disto. A coisa foi assim, ainda hoje sou capaz de rir a rever acena….
Eu e o outro furriel no topo da corda agarrávamo-nos firmemente pelos braços. E os restantes atrás começavam a puxar em direcções opostas.  Pois não senhor. O vinho fila-me pela cintura levanta-me como um boneco e abana-me e puxa enquanto dizia: ÁH CABRÕES … QUEREM GUERRA É? De dentes cerrados e olhar furibundo, que eu me lembre não cheguei a por os pés no chão e andava ali num virote feito uma marionete com as articulações todas a articularem furiosamente numa estranha dança ( estão a ver… é esta a dança a que me refiro no título). Claro que toda a gente se atirou para o chão agarrados à barriga a rir perdidamente e foi uma vitória fácil…..
Quando ele me largou caí redomdinho no chão a rir . Mas ainda deu para ouvir o meu manipulador dizer:
- “Atão”…. Querem mais????? E mostrava uma fiada de dentes brancos no meio das bochechas de tomate saloio, abertas num sorriso de rapazola maroto.
Já nem jogámos à bola…..
Esta cena esteve na ordem do dia durante mais de um Mês…. Para mim durará até que o tal  Sr. Alemão  um tal Alzheimer tome conta de mim, o que espero nunca venha a acontecer. Valha-me o vinho  que segundo parece é boa prevenção contra  o Alzheimer….    
E tu amigo vinho, espero que não te tenham proibido de comer frugalmente e de beber jarradas…..
                                 António Capucha
                   Peniche, Setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Efectivamente

à esquerda, posição de funeral arma


Efectivamente
Durante a vida cruzamo-nos com digamos que milhares de pessoas com quem estabelecemos mais ou menos relações, intimidades, raras vezes amizades, iden: ódios e raivas mais ou menos contidas E às vezes, a maior parte delas, não passa de uma cultivada e recíproca ignorância quase cerimoniosamente mantida, civilizada e tão oca como a caixa de uma guitarra.
A tropa do meu tempo entre várias coisa era uma montra de tipos… figuras, figurinhas e figurões. Tenho, “vivas com’á sardinha”, em memória episódios riquíssimos no material de que se fazem os sonhos. E por extensão os contos e “estórias”.
Respigo assim ao acaso uma de um Sr. Major que nos entrou pela casa dentro vindo não se sabe donde. O certo é que aterrou no R. I. 5 das Caldas da Rainha, (mulas 5, para os vaidosos da cavalaria) para ser episodicamente o nosso 2º Comandante da C. Cac. E da C. de Comando e Serviços.
Um pacato fim de semana, estava eu de Sargento de dia á Unidade. O bom do Sr.major,  cujo nome não retive,  porque até ser rebaptizado foi um fósforo e esse sim prevalece sobre o nome que os seus pais terão queimado as pestanas para seleccionar entre a panóplia de nomes de Santos , heróis biblicos , gregos e romanos clássicos  que assentassem bem num futuro major…. a sua figura essa assentava que nem uma luva naquilo que nos habituamos a associar a um Major de Infantaria…. Estatura mediana, “peitaça” forte e proeminente e o andar à cavalo de cortesias….
Estávamos uns quantos malandros a espevitar o passo ao tempo, no meio da parada,quando o Major, na altura ainda Major X, me chamou e disse.:
- Furriel, recebi agora uma ordem do Q.G. da Região para organizar um pelotão de homens para fazer a guarda d’honra ao funeral do General Tal e tal. Ora em contas rápidas lá lhe fui dizendo que entre prontos e graduados não havia com que perfazer trinta homens. Pragmático aduziu: então arrebanhe aí uns maçaricos e pronto….. Pode tratar disso? Claro meu Major! Juntamos os pobres coitados ali mesmo na parada e o Major expôs a situação. Durante a sua alocução notei que usava com frequência notável o termo: EFECTIVAMENTE, como uma muleta discursiva…. A páginas tantas sai-se com esta: efectivamente o tempo fenece! A malta contorcia-se mas susteve a gargalhada…. Ele também não se deu por achado, nem pareceu perturbado. Efectivemente tínhamos homem….
Efectvamente, Furriel estes homens chegam. A coisa assim já fica efectivamente bem composta….
Bom em conclusão daqui a meia hora todos aqui em farda nº 2…..
Assim se fez que Major pode…. E manda.
Até que um macacão diz: meu Major, ninguém se lembra de como é que é isso do funeral arma…..
O Major olha para mim….. Abano a cabeça significativamente…. Ele terá compreendido….. claro um Furriel quase a ir p’rá peluda!!!!
Olhou implorando para o oficial de dia um veterano também ele e a resposta deste não diferiu das restantes…. O contrário é que seria estranho terá pensado… Efectivamente há-de ser o mais importante p´rá tropa essa patacoada do funeral arma.
Para os que não sabem, e espero que sejam muitos, o funeral arma é uma manobra feita com a arma que os bacocos que se dedicam a criar estes salamaleques acreditam ser uma manobra de expressão militar que evidencia o respeito devido à morte dos camaradas. Tal com o ombro arma corresponde à continência e o apresentar armas é uma honraria destinada aos oficiais superiores ou a visitas importantes …..
Esta sucessão de acontecimentos e a reacção do Major, agradou-me…. O seu pragmatismo o seu sentido prático das coisas distinguia-o da maioria dos restantes oficiais. Tão pomposos como idólatras dos seus quid pro quo's….. Dizem que reside aí a sua força e o segredo da recantada disciplina. Quarenta e vários meses que por lá andei, não deram para inferir isso ….. Devo ser burro!!!
Engracei com o Major. Eu e todos os outros. Igual a si próprio declarou o Sr. Oficial de dia e o nosso Furriel farão o favor de resolver este detalhe. E sumiu-se dali , acredito que para nos deixar mais à vontade.
Lá inventámos um salamaleque ponposíssimo em cinco movimentos. E ensaiámo-lo até a coisa sair mais ou menos bem…. Sincronizamos os movimentos para as salvas de tiros e fomos para a sala dos Sargentos malhar uns púcaros e umas sandes de presunto, as melhores da unidade…. Quando o Major; já e sem remédio: Major Efectivamente nos procurou, estava tudo assegurado, foi enfiar toda a gente na camionete e ficamos a rezar para que os maçaricos não dessem casa….
Mais tarde viemos a saber, quando eles regressaram que correu tudo lindamente. Apenas um maçarico não deu conta que ainda tinha a bala na câmara e disparou felizmente para o ar, não acertando em nada. Havia um morto mas esse já o era, portanto tudo como dantes Quartel General em Abrantes…..
Mais tarde ainda o Regimento foi louvado pelo pundonor com que desempenhou a guarda d’honra ao Ex. General….. Categoria!!!!
Agora o que não lembra ao diabo, mas lembrou à tropa, foi fazerem deste vosso amigo Encarregado das Obras do Regimento….Deram-me uma GMC, daquelas que sobem paredes a pique e meia dúzia de artífices manhosos, tão manhosos como o mestre d’obras…. Ou seja: EU.
Cruel, o destino fez-nos cruzar de novo, o Major Efectivamente e eu próprio, na minha nova qualidade….
Furriel!!!! Há-de arranjar aí uns quantos Homens para capinar…. Efectivamente o capim está muito alto e não pode ser…. No dia seguinte esforcei-me para cumprir as ordens expressas dele, Mas…. ‘Tá bem ‘tá….. Mal acabou a chamada aquilo pareciam pardais a dar de frosques.
Vou dali ao gabinete dele confiando na seu sentido prático das coisas ….. Meu Major:
Isto é complicado….. isto é malta que só está à espera da peluda, mal olho para o lado para fazer a lista, Já debandaram todos . Alguns moram aqui perto têm as suas hortas e tal, outros vão tentar ganhar algum a qualquer lado, de modo que, se o Meu Major concordar eu vou à cidade comprar um Herbicida total e  aplica-se  no capim…. Boa ideia Furriel… Faça lá isso.
 Assim se fez que Major, como já disse, manda muito!
No dia seguinte e por sugestão dele cercou-se com cordas uns quantos metros quadrados de erva alta. E nós mesmos com o pulverizador burrifamos a coisa….
Bom , dizia: Furriel , efectivamente agora só nos resta aguardar….
A partir desse episódio todas as manhãs durante a formatura de serviço O Major lá ia  à cercadura sem que mudança alguma ocorresse. Pelo rabo do olho eu seguia-o e adivinhando-lhe os pensamentos e em antecipação vou ter com ele levando a embalagem do produto…. Meu Major… Só agora reparo que isto só faz efeito após uma chuvada…. Está aqui olhe! Ele olhou e abanou a cabeça que sim …. Que entendia.
Um belo dia chega a peluda  e eu já desfardado fui ter com ele ao pé do capim e disse Meu Major…. Vai ver que resulta….. Então vai embora pergunta.
Sim acabou-se!!!!
Então muitas felicidades.
Igualmente para si Sr. Major….
Apertamos efectivamente as mãos…. E lá ficou a vigiar esperançoso a morte do capim e eu fui dali para a vida………

                                  António Capucha
                         Peniche, Setembro de 2010.

domingo, 26 de setembro de 2010

Escola da Bica do Chinelo

Arcadas da antiga Escola da Bica do Chinelo ao fundo. Demolida por motivos óbvios.

Escola da Bica do Chinelo 

 Seguindo o caminho de casa, ziguezagueava ao sabor das trajectórias caprichosas que as pedras “pontapeáveis” tomavam a cada pontapé que lhes afinfava a fim de meter golo nas poças d’água. Como uma banda sonora que complementava a acção, imitava em surdina o “vozerio” da assistência e debitava como uma ladaínha o “relato” como o ouvia na “tlefonia”.
A sacola às costas oscilava a compasso e ameaçava regurgitar o conteúdo constituído pelos parcos haveres de um aluno da primeira classe da escola primária da Bica do Chinelo. Nestas manobras já tinham sido imoladas duas ou três “penas”, que eram uns “pauzinhos” em ardósia para escrever na “pedra”, um quadro em miniatura igualmente em ardósia.
Dali à Rua do Jardim, onde morava, era um pulinho tão pequeno que se dava em menos de nada. O que significava que o que o separava das “coisas da escola” era igualmente escasso em distância, logo em tempo. Aquele desafio de futebol com os calhaus do caminho era portanto um pauzinho na engrenagem implacável do tempo. O resto era uma árdua e empenhada mise-en-scène, de um jogo de bola cuja “grande área”, em plena poça d’água, era palco da disputa com imaginários adversários. Pontapé daqui, canelada dali, rodopiando em fintas siderais e sarrafada de “meia –noite” até o meter, ao calhau, bem na parte mais funda e aí sim, o locutor gritava gooooooolo…… Travassos….. Gooooooolo do Sportíng……
As botas? Pois não sei! O estado em que ficavam????…. Ora pois bem …. Molhadas e “esbeiçadas”. Nada de grave, julgo.
Foram feitas pelo sr. Chico, sapateiro da aldeia da sua mãe na Beira Baixa, dois números acima que o rapaz estava a crescer…. E eram tão sólidas e façanhudas como a agreste paisagem beirã. Com sola de pneu e gáspeas de couro, todas cosidas à mão e protectores nos calcanhares e biqueira, pregados com cravos de ferradura e rebitados.  Um autentico tanque diria eu….Os pés, de permeio com um par de grossas meias de lã, estavam quentes, já se deixa ver, seja pela estanquicidade do artefacto, ou pela azáfama irrequieta do encontro de bola. Vá lá saber-se!!
Bom…. Se a ideia era enganar o tempo, eficácia não lhe faltava, pois já ia p’raí em dez a zero e ainda não tinha percorrido mais de um quarto da distância a vencer… Era coisa para acabar lá p’rós cinquenta a zero, digo eu. Ao triste do adversário valia-lhe o facto de ser imaginário, virtual, ainda assim havia de ter um óptimo feitio e um “fairplay” à prova de tudo, para suportar tão avassaladora superioridade e tão humilhante resultado.
Mas é assim na imaginação dos rapazes….. Não há lugar ao perdão bem como não o houve à perversão no desenrolar da partida. Não há truques e nunca é falta…. Penalties?????  Nem vê-los….
Não há conflito. Nem para as botas….
A verdade é que as faces do “lingrinhas” estavam afogueadas. Quem passava era disso testemunha e também podiam, se quisessem, testemunhar a irradiante, diria contagiante, alegria do futebolista. Mas não. Decididamente não queriam…. Quem passava abanava desaprovadoramente a cabeça, ou sem se conter dizia: Áh rapaz de má raça….. Havias de andar mas era descalço…. Já davas valor às botas! Mal-estreado do moço!
Que sabe essa gente de botas feitas por medida pelo Sr. Chico, lá da vetusta Tinalhas? Nem sabem do tamanho e doçura das suas melancias…. Do Padre Zé que dizia a missa lá num Latim que era só dele…. E a festa da Rainha Santa Isabel, com a banda a troar: PUM…PÓ…PÓ… TCHIM…. PÓ…PÓ…. TCHIM… PÓ…PÓ…TCHIM…. E que parecia deslizar pela rua abaixo, por entre as colchas bordadas penduradas das janelas…  E de “adiufes”, Sabem de adufes?
Quanto mais saberem de botas!!!!
A multidão grita: SÒ MAIS UM…. SÒ MAIS UM… SÓ MAIS UM…
Bem… Isto hoje está mau…. Vai chegar tarde a casa. A mãe há-de ficar ralada….
Não faz mal….
Ele não o dirá – porque não cabe aqui o discurso directo - mas tenho a certeza que lhe terá passado pela cabeça dizer-lhe:
Deixe-me ficar mais um bocadinho…. Depois a mãe bate-me!!!!!



                                                      António Capucha
                                      Vila Franca de Xira, Agosto de 2010

Dedicado a todos os meus colegas da Escola Primária, à minha tia Odete, tinalhense de gema (que também foi professora nessa escola) e, claro à D. Conceição a minha professora…

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A borrasca

Cabo Carvoeiro



A borrasca.


O vento estava algo forte. Mas isso não era de forma alguma desculpa para não sair para a tarde de outono, que, para o que havia ameaçado de manhã, estava até muito comedido.
A natureza forte do promontório do Cabo Carvoeiro, apresentava a sua variante: paleta de cinzas. É a minha preferida. Uma gama infindável de tons de cinza aqui e ali salpicada do dourado do Sol, dos ocasionais e breves rasgões no tecto de nuvens, que decoravam o mar como se fossem fitas de árvore de Natal. Estávamos todos na rua, eu a minha mulher a miúda e o cão a usufruir do facto de não haver nada para fazer. A não ser apanhar pedrinhas com pequenos fósseis de estrelas-do-mar (Crinóides) ou fazer bolinhos de barro e areia e também não deixava de ser interessante fazer covas entre as camarinhas Para fazer saltar coelhos que teimavam em não colaborar na brincadeira.
Coisas do arco-da-velha. Um dia em cheio…. Com este pensamento deu-me a vontade de uma bebida quente no bar empoleirado no Cabo, a ”Nau dos Corvos” ali mais à frente. Virei-me nessa direcção em meti pés ao caminho…. E quando cheguei à estrada apercebo-me de uma mancha de um cinzento acastanhado com raios e coriscos em todas as direcções como nunca vira igual. Vinha de Sudoeste e a galgar mar à força toda. Primeiro fiquei especado ante aquela manifestação de poder. Depois realizo o potencial perigo da coisa e grito para todos…. É lá…. Fujam para casa e aponto na direcção da borrasca. Nem pensaram duas vezes, ála que se faz tarde!!!!
Eu agarrei no cão que relutante lá deixou a pista dos coelhos, corro para casa fecho tudo às sete chaves estores e tudo.
Não chegou o relógio a cumprir uma volta do ponteiro dos segundos, e uma barulheira infernal, misto de chuva, vento e trovões em grande confusão, abateu-se sobre a casa parecia que ia tudo pelo ar. Apesar dos estores corridos entrava água como se a janela estivesse escancarada. Foram precisos vários minutos, não cuidei de saber quantos, para que passasse a nossa ansiedade. E bom…. Estávamos todos, e bem. Desta já nos safámos….. Saí para a rua e olhei de fora o casarâo. Aparte uma ou outra placa de “Lusalit”fora do lugar, um ou outro estore arrancado ou desencaixado, até que o casarão aguentou bem aquela coisa que ainda hoje estou para saber o que, e eu já tenho uma dose destas coisas. apreciável. Furacão ou esfola gatos, vá lá saber-se... Mas que foi o Diabo foi!!!!!
Chatice …. Já não fui ao bar. Os bolinhos de barro e areia desfizeram-se. Apenas a falésia dos Remédios a Berlenga e o mar estavam na mesma. Impávidos e serenos sob o Sol que os bafejava, em desafio gritavam: Manda-me dessas que dessas já cá tivemos muitas.
E querem saber uma coisa? Eu até acho que sim!!!! Hão-de ter sido inúmeras coisas destas que fizeram o conjunto arquitectural natural que nos deslumbra. Nós é que a provar que não somos perdidos nem achados nestas coisas, ficamos tolhidos de medo da natureza… Como se não fizéssemos parte dela…. 
Presunção e água benta cada um toma a que quer!!!
Isto aprendi eu naquele dia e muitas outras lições tenho aprendido e aprenderei, em circunstâncias semelhantes, desde que tenha a humildade e a clarividência de me aconchegar ao meu pequeno canto e esperar que a coisa passe…. È só o que podemos fazer….. Esperar que passe…..  

                                          António Capucha
                                  Peniche, Setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Palhoça, ou: O escravo do amor!

                      


Palhoça, ou: O escravo do amor!
Todas as manhãs naquela caserna do R.I. 5 - Caldas da Rainha, após o despertar tocado pelo corneteiro dava-se o toque de alvorada privado da companhia de caçadores…. Era o Palhoça, assim chamado porque era essa a sua proveniência uma encenação mil vezes repetida mas sempre diferente….
Ora o bom do Palhoça, que dormia no beliche de primeiro andar, sensivelmente a meio da caserna, erguia-se da cama e punha-se de pé em cima dela, e ainda com as marcas da noite bem dormida e do calor da cama bem adivinhável por baixo das calças do pijama não é impunemente que se tem pouco mais de vinte anos e saúde a rodos. Que isto é como dizia o avô de uma pessoa da qual não divulgo o nome para eu próprio, não ser posto a pão e laranjas. O senhor em causa operário da CP no inicio do Século passado, Anarco- sindicalista, grevista e tudo! Era pessoa de palavra e trato fácil e dizia-me então com o seu ar de filósofo operário: Olha pá…. Debaixo dos pés se levantam os trabalhos. E debaixo dos lençóis se levantam os c……. Bom, rima com trabalhos e é substantivo macho e também plural……
Nestes preparos o Palhoça preparava a sua récita…..
E hei-lo que começa:
- É o palhoça….. O escravo do amor….. Com os olhos vendados p’la bandeira nacional….. Cruza e descruza os braços……. PALHOÇA….. O ESCRAVO DO AMOR!!!!!
Isto assim dizia ele com o tom nasalado…. Que é como quem diz, com os dedos a apertar o nariz a imitar os altifalantes de corneta das feiras de então num Poço da Morte virtual…… Nasalado diz-se sem propriedade porque devia dizer-se inasalado isto porque ao som normal é retirado a caixa de ressonância natural formada pelo labirinto acústico do nariz e as fossas nazais por onde sai uma componente do som sem o qual chamamos nasalado…… Mas porque se lhe retirou oefeito nariz devia dizer-se anasalado ou inasalado. Bem Acho que mais ninguém interrompia uma descrição tão empolgante para perorar sobre este assunto…. Mas que querem é mais forte do que eu….. Voltemos pois portanto à “estória”
Mal ele começava a “converseta”, era a deixa para o restante pessoal atirar botas toalhas e mais ou menos tudo o que exprimisse o nosso enfado e não fosse suficientemente expressivo para o aleijar…..
O nosso Homem já nem sabia muito direito onde é que tinha ido buscar a ladainha, sobretudo aquela do: Escravo do amor…..Mas que merecia umas botas e chineladas…. Áh lá isso valia…..
Amores potenciais, desmedidos e vontade de andar de mota às voltas no Barril de fundo arredondado que era o Poço da Morte.
Não sei se estão a imaginar bem o filme. O rapaz de pé em cima da mota, as pontas da bandeira Nacional a dardejar ao vento da deslocação do ar e o cabelo a esvoaçar, braços abertos que cruza e descruza, camisa negra aberta até onde a decência da época o permitia, botas em couro preto de cano alto…. E aquela coisa berrada nos altifalantes a condizer com o enorme sorriso de felicidade de vencer o tempo, menos um dia para a “peluda”…..
Nunca mais desde esses tempos, o vi. Ou a qualquer outro daquela coisa que foi a tropa. Também não soube de qualquer encontro da naftalina, da C. Caça. de mil novecentos… e tal….. E se houvesse não sei se iria. Acho que sucumbiria a uma apoplepsia ao ver o Escravo do amor careca gordo e a chamar-se Jacinto…….
Foram pessoas como ele que evitaram que aquela passagem pela ordem militar fizesse mais estragos do que fez…….

António Capucha
Peniche, Setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O palácio do Sr. D. Miguel

Palácio do Sr. D. Miguel

O palácio do Sr. D. Miguel, Príncipe Real da casa de Bragança. Foi abaixo nos idos de mil novecentos e setenta em plena Primavera Marcelista do antanho fascista. Mas como se deixa ver de primavera só tinha o nome que a invernia era a mesma. É que sob a capa já muito remendada da sisudez e respeito pela tradição (valores alardeados pela direita mais reaccionária ainda hoje), a realidade é que a venalidade era a norma nesta como noutras coisas….  Associado como era timbre na altura, à estupidez, ignorância e desrespeito pelo património colectivo que é a nossa Historia…Aliás daqueles tempos espera-se quase tudo. O pior é que parece que o vício pegou e tornou-se quase norma sacrificar valores históricos ou culturais, em nome de eventuais factores de progresso mais que duvidosos. E atenção.... Embora pareça, não foi uma invenção dos vilafranquenses.ou dos portugueses. É mais fruto da arrogância intelectual da fase civilizacional que estamos a atravessar.  Quem manda pode e os que podem mandam que tudo seja descartável face ao que eles decidem ser o progresso ou outra qualquer manobra para encobrir as canalhices que nem me dou ao trabalho de descrever. E isto já vem muito de trás como adiante se verá.....
Voltando ao palácio….. Não sou especialista mas algo me diz que ele não era um primor arquitectónico. Mas o seu valor Histórico era  inegável.
Quando o D. Miguel se juntou às tropas absolutistas que escolheram Vila franca para sediar, é natural que tenha pernoitado no casarão, e lá tenha reunido com os generais dos revoltosos. Com certeza que não terá sido no 14 e 8, ou no Cabeça de Toiro de permeio com uns “tintois” de respeito e umas pataniscas de bacalhau que se conspirou....….
Embora pelas piores razões A chamada Vilafrancada, que é o único facto que mete Vila Franca na História de Portugal sem que tenha havido a necessidade de o Prof. José Hermano Saraiva, desenterrar factos duvidosos como quem colhe grelos na horta. Temos o nosso lugar garantido na História e como disse, embora não seja pelas boas razões: Porque se a revolta absolutista triunfasse significaria um retrocesso Histórico de monta. Que não se deu porque os absolutistas e o infante levaram para "tabaco" das tropas constitucionais que se lhe opunham. E por essa razão Vila Franca, passou a ser chamada de Vila Franca da Restauração.... Isto Século e meio antes de abrir o "Zé dos Frangos" que inaugurou outra fase de real progresso económico mas não só, assente no florescimento Também da restauração (esta outra de faca e garfo) vilafranquense.... 
Essa razão não é porém de tal monta a que o edifício em causa fosse descartável. Os mamarrachos que hoje ocupam o seu lugar podiam ser feitos em qualquer outro lugar, só que, as casas ficavam a ter valor diverso – inferior – porque aquele sítio é que é central…. Em pleno Martir Santo exactamente em frente à igreja. 
Mais tarde na primeira república nas greves do principio do Seculo XX, aquela Estória dos operários de Alhandra e dos “cagaréus” os Vila-Franquenses, ou está mal contada ou também não abona muito em nosso favor. Parece existir a forte tendência para fazer tudo errado e estar sempre do lado errado das coisas, Julgo no entanto que estas ultimas se devem mais à rivalidade entre ambas as Vilas, expressas mais recentemente na disputa da verdadeira sede natural e Histórica do Neo-Realismo. Coisas deste tipo são para derrimir no futebol, já o foi no Remo e na Vela, mas ao que parece nem uma nem a outra vila têm economias capazes de sustentar uma equipa de futebol, suficientemente vingadora das afrontas dos seus vizinhos….
Noutro lado, na rua do Jardim , por cima do CASI e em frente ao Ateneu, existia uma correnteza de casas pequenas, modestas e iguais, que terão sido, digo eu, uma vila operária  e mais à frente de Sul para Norte do mesmo lado existiu um pátio tradicional com equipamento colectivo – os tanques de lavar a roupa estendal etc. Hoje é um altaneiro bairro de apartamentos caros onde aceitando entre a seu “porte” ostensivo  e pedante, a Junta de Freguesia do burgo) nesse pátio  morou um maioral a sério…  A cujo garbo equestre eu rapazola assistia da minha janela todas as tardes. Estas casas e o pátio que já teriam sido construídas em cima de um jardim e do sítio também desapareceu uma Igreja gótica.   
Um tudo nada mais abaixo onde hoje é rua ou calçada da Fonte Nova Que desemboca no largo do Adro  da igreja Matriz tudo isso era um cemitério e desse facto possuo a prova pois umas obras aí havidas em meados de cinquenta do Século passado revelou um sem número de ossadas humanas.com restos dos caixões. Claro que foi um acontecimento no bairro e uma festa para a rapaziada....                                        
Continuando para Norte, idos da rua do Jardim,  havia uma vila operária, num plano elevado em relação à rua e que ia quase até à quinta onde morava o Dr. Luis. Sensivelmente a meio tinha um arco que ligava a vila a um baldio nas traseiras onde faziam umas hortas. Nesse bairro morava uma personagem que me mantinha pendurado da janela com gosto… Era um antigo operário ao tempo reformado, que vestia ainda e sempre o seu fato de macaco. E nesse preparo ia de casa, uma ou duas vezes por dia, com um pequeno canito atrelado a uma carroça pintada a preceito e com campainhas e guizos, e à giza de condutor levava empoleirado um galito có-có. Linda procissão…. Que se detinha ali na rua direita na tasca do pai da Júlia Que tinha uns tonéis que “amandavam ventarolas” À porta da tasca com dois degraus estava uma velhota com um fogareiro aceso e um cesto de verga com ostras apanhadas nesse dia ali abaixo no Tejo. Ora o mau Habito que se cultivava na tasca ( como é sabido nas tascas só se adquirem maus Hábitos) era comprar à velhota uma ostra que ela punha a abrir sobre o carvão, pulvilhar com um pouco de sal e pimenta preta que a senhora fornecia e espremer umas gotas de meio limão. Assim munidos entravam na taberna e pediam um copo de vinho e estava feita a boca para o almoço ou o jantar…. Não sei se o Sr. D. Miguel sabia disto ou mesmo se as tropas da vergonha absolutista cá estivessem por esta razão. Isso já atenuava a ignomínia de nos terem escolhido para base da revolta. 

O Infante D. miguel junta-se às tropas absolutistas em Vila Franca de Xira
                                                 


Não sei que tipo de apoio receberam da população. Agora da parte da nobreza é seguro que recolheram os entusiastas “vivós” e foguetórios. Ao que parece, embora nem todos os nobres fossem absolutistas, uma boa parte sê-lo-ia... Quando os  Filipes de Espanha tomaram conta disto tiveram mais apoio da nobreza de Portugal do que seria decente e patriótico esperar. A nobreza preferia a monarquia espanhola que era mais tradicionalista e bem mais rica e por isso distribuiria por eles mais bens e honrarias que a casa real portuguesa, bem mais parca de recursos e com menos com que  partilhar com esta gente supostamente patriótica… Bem adiante…
Também parece que apostaram no cavalo errado porque os reis de Espanha eram mais magnânimos, sim senhor,  mas com os fidalgos espanhóis e os nosso ficaram a torcer a orelha e a chuchar no dedo: Salvo raras excepções a nossa nobreza efectivamente era para além de venal, sumamente estúpida. Porque é que nós os vila-franquenses, havíamos de ser perfeitos e menos abéculas quando se tratava de escolher um lado das coisas que é de regra terem sempre dois lados. As ostras têm muito Fósforo (P) mas não o suficiente para transformar um bando de cagaréus “incultos” - é melhor dizer iletrados, que cultura tinham-na, e bem vincada.– em cidadãos clarividentes….  
Por último espero não ter que assistir aquilo que em jeito de profecia vou fazer. Mas a expansão do lobie do cimento é tal, que tem levado à cegueira, não já da destruição patrimonial, mas, e pasme-se, da duvidosa segurança do que é construído. A urbe de Vila Franca está prestes a abraçar o Monte Gordo e aquele terreno até ao maciço calcário é de terra não muito firme…. (eu próprio testemunhei deslizamentos de terras em todos os Invernos de muita chuva.) Ora isso associado ao peso do parque construído fará um belo

Vila Franca de Xira inicio do século XX .Ainda não havia a pedreira do António Maria .  é bem visível a natureza do solo abaixo do maciço calcário

”skate”…. Se ao terreno empapado e demasiado pesado lhe juntarmos umas abanadelas telúricas então o desastre parece-me inevitável…. O mesmo lóbie aposta espraiar-se para a Lezíria, por enquanto apenas na margem Norte… Mas até essa já parece excessiva.  Há que trava-los, se não vão deitar abaixo a capela da Senhora d’Alcamé para construírem um “ressort” de luxo onde a senhora é substituída pela de Fatima e vendida em pernoitas abençoadas e orgias com campinos autênticos de pampilho tudo…. É claro que é barrete……. O que trarão na cabeça… Os cavalos serão alados!!! 
Vá lá senhores importantes, que decidem destas coisas. Travem enquanto é tempo…..  Já se fizeram asneiras de mais. As referências que faço ao longo  deste texto, se pecam, é por defeito. Não se defende, não está dito em lado nenhum, que dantes é que era… É evidente que não era, casas vetustas e sem qualidade. Agora o que foi feito em seu lugar é excessivo e de beleza duvidosa… E sobretudo o seu volume, que impede linhas de vista que outrora faziam a alma e o ser da  nossa vila. Façam um favor a vós próprios e estudem bem a forma de consolidar os prédios da encosta do Monte Gordo…. E não permitam o desvirtuamento da Lezíria… Mais caixotes de cimento com mais ou menos cromados, fó-fós e luzinhas, mas caixotes… Não!!!!!
E o Cais senhores….. Devia ser tratado como uma pérola…. Não só por ter sido o berço da urbe, mas porque é efectivamente bonito… Não se trata só do que se vê de perto… Como na foto, é vista do rio que o cais e Vila Franca ganham relevo. É só mudarmos de perspectiva e descobrimos sempre algo novo e surpreendente. Agora encham aquilo de carros estacionados! E vão querer sair dali a sete pés. É do interesse público preservar as belezas herdadas, valoriza-las. E não permitir que como na rua direita o trânsito continue a devassá-la,  à  pala da falácia de alguns comerciantes que afrontam o interesse público com desculpas esfarrapadas. Sabem o que é autoridade democrática????…. Então o que é que se passa. Não são suficientemente autoritários ou não sentem o legado da autoridade que o povo lhes conferiu. Ou não são suficientemente democratas?
Também se pode dar o caso de não serem suficientemente esclarecidos para entender o que é de interesse público.... Mas é para isso mesmo que há especialistas. O que eu não sei é se será preciso a opinião de um especialista para realizar que um "ressort" de luxo Com campos de golf e tudo, vai na Lezíria ou nos Mouxões do Tejo tão bem, como uma viola num enterro....

 
Cais de Vila Franca de Xira
                          
                           António Capucha
         Vila franca de Xira, Setembro de 2010

PS - Esta peroração teve o inestimável apoio do Ex.º Mestre em História Zé Costa, que faz o favor de ser meu amigo. Quero deixar público o meu agradecimento que já fiz em privado.....

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Manél" o matador de cobras




“Manél” o matador de cobras
Palavras não eram ditas já o pássaro ia no ar… E a cobra, dengosa, desenrolava-se da mola que formara para saltar e aparentando desdém parte dali, por entre a erva seca da charneca.
O alecrim e rosmaninho expeliam fragâncias que perfumavam o ar. E o Sol, aberto, desbragado, castigava o ambiente com o seu olhar de rei.
Um fio de suor corria-lhe da fonte até ao queixo percorrendo-lhe a face imberbe de menino.
Um pouco mais à frente um dos seus tios agachado armava um dos “costelos” que traziam para armar aos pássaros. Mete-lhe a “formiga d’asa” na armadilha e disfarça-a com restolho folhas e ervas. Ouve então o sibilino silvo da cobra a pouco mais de um metro dele… Era preta e estava pronta para saltar-lhe em cimo e morder-lhe… Lentamente ergue-se apanha um calhau de respeito do chão, e como um raio atira-o à cabeça da bicha que ficou a contorcer-se e a rebolar com a cabeça mais achatada do que já era e a boca retorcida…. Os seus olhos de menino, ávidos, seguiam a cena gravando meticulosamente na memória, cada detalhe, sulcando-a bem. E de tal maneira bem ficou, que, ainda hoje lhe parece que a está a ver. Foi isto que lhe ficou daquela manhã de Julho de mil novecentos e cinquenta e qualquer coisa, seis, sete, ou oito.... sei lá!
Antes de irem armar aos pássaros, foram apanhar “formigas d’asa” que são como o nome indica umas formigas grandes e aladas,  que naquela época do ano eclodem e  são assim como que uma orgia alimentar para a passarada da charneca envolvente da Aldeia de Tinalhas… Como em tudo o mais, a relação das pessoas da terra com a natureza,  são de respeito, não é como, quando e o que elas querem., mas sim quando a natureza está receptiva para isso e o autoriza…. Mas o que é importante aqui dizer é que ele , o gaiato, não recorda uma centelha do que foi essa caçada das formigas, Nem do caminho que fizeram desde casa, tão pouco o regresso está presente. Este episódio - da cobra - está assim como que suspenso do tempo e a valer por si só desgarrado de tudo o que o precedeu e o que se lhe seguiu…. O seu tio “Manél”, não era um atleta, tão pouco um atirador especial.  Mas aquela pedrada certeira na cabeça do que sei agora ser, melhor - ter sido - uma víbora, esse sim é um acto memorável. O Rambo que nos entra pela casa dentro sem pedir licença e sem que tenha sido convidado, ao pé dele é um caldinho de galinha…. Um produto de segunda escolha, que não sabe distinguir uma víbora de um carapau. E por isso desanca ambos. Isto porque no fim só pode sobrar um de pé, e manda o guião que seja ele…..
Mais logo depois de meter os passarocos caçados na gaiola grande do quintal. Um deles era redondo e gordo e cantava como se o estivessem a matar, os pintassilgos  esses chilreavam comedidos e serenos, parecia que estavam em casa....
Como íamos dizendo mais logo, o almoço era devorado na "broa", porque dalí  haviam de ir à festa da Raínha Santa Isabel, e ele estava autorizado a macaquear atrás da banda onde tocava o “Zé Coradinho”  que também era o “choufeur” da “camionete” que fazia a carreira para Castelo Branco… Mais lá para o fim da tarde quando o calor abrandasse, haveria de ir ver o jogo da bola, solteiros contra casados onde o seu herói, o imérito matador de víboras, ia marcar um “golaço”, assim cá de fora da rua…. Sorte????
Não senhor…. Pontaria de matador de cobras é o que é……


                   António Capucha
Vila Franca de Xira, Setembro de 2010

Ps – Esta é uma homenagem singela, mas sentida, ao meu tio Manuel recentemente desaparecido.