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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Greve Geral, Nacional


Em dia de Greve Geral, Nacional, não devemos dar curso às coisas que fazemos como obrigação, como o trabalho. Investiguei o meu coração acerca de, se sim ou se não, devia abastecer o “blogue”. (que raio de nome que esta coisa tem)
Ficou mais ou menos claro que esta tarefa é mais por devoção que por obrigação. Mas não completamente…. Já que esta disciplina de “descascar” algo, pelo menos com dois dias de intervalo, é uma obrigação a que me imponho.
Estou portanto, e em relação à filosofia grevista, em conflito de Elvira Patroa e Elvira costureira. Se sou eu ser, uno e indivisível, quem ordena a si próprio que assim se faça. Com é que eu, indivisível que sou, posso fazer greve se o que faço, o faço por prazer?
Cruel dilema….
Mas os ratões do costume, têm tanto de esquivos, como de diplomático.
Assim criou-se a ideia dos serviços mínimos. Espécie híbrida destas coisas, que é um mecanismo, uma hábil artimanha para que todos fiquem bem no retrato. Os patrões como metade de mim, declaram ser a greve um direito dos trabalhadores. E o tenebrosos grevistas, tal como a minha outra metade, vêem humanizado o seu “irredutivismo”, garantindo, para que conste, as coisas tidas e regulamentadas como indispensáveis a que este quase cadáver social, continue a ventilar….
E é isso, em resumo, que estou a fazer: Os serviços mínimos.
A minha metade patroa, dir-vos-ia: querem conversa’ Vão mas é trabalhar Óh!!!!!
Ao passo que a outra, numa pungente desculpa diz: É pá desculpem lá o mau jeito , mas isto é assim um dever de consciência. Obrigado por gostarem de me ler….
Até depois amigos!!!!

                               Antó Capu
  
      Vila Franca de Xira,Novembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Óh Franciú, queres vender o espingardú

Duas das três linhas de defesa do Oeste

Aquando das invasões francesas, é seguro afirmar-se que o conceito hoje muito disseminado de Pátria, que em tudo, e por tudo e por nada se afirma, o mais das vezes em aspectos mais “patrioteiros” que patrióticos.
Bom.... Parece que apesar de tudo a população portuguesa terá reagido ao invasor não  deixando que as razões de espalhar por toda a Europa as ideias da Revolução Francesa, assim ao estilo de : Levas tantas no toutiço até que sejas mais livre, mais igualitário e mais fraterno. E esta coisa de levar a guerra usando-a como apuramento civilizacional é uma metodologia que foi ficando até hoje…. Mais ou menos ao jeito de guerras santas, despontam um pouco por todo o lado. Mais cirúrgicas, e na aparência mais limpas são em boa verdade mais devastadoras. Se dantes, nas guerras românticas havia mais equilíbrio entre os contendores. Isto é: Eram ambos o povo das suas Pátrias, de resto pouco os fazia diferir um do outro quando as primeiras linhas davam assim o peito às balas. E só com o desenrolar da batalha, é que vinham os factores que faziam de uns vencedores e dos outros vencidos. Factores tais como número de combatentes, escolha do campo de batalha, inteligência do Comando, qualidade do treino militar dos combatentes etc….etc…. A vitória só era conseguida após imensa baixas de um lado e de outro.
Hoje em dia não é nada disto. O exército agressor ou invasor, desse-lhe as voltas que se quiser é assim!!!! Usando sobretudo a superioridade tecnológica, ataca não só militares, mas tudo a eito, numa guerra que não requer nem coragem nem razão nem coisa alguma que a humanize. (aqui humanize, é no sentido de que é interpretada por humanos).
Nem vale a pena pensar muito no assunto para se verificar que é mesmo assim….
Mas dantes a ausência de uma comunicação eficaz, levava a que o universo dos combatentes fosse pouco mais que o seu quintal, isso conduzia invariavelmente a que as razões para que os homens combatessem com ardor, tinham que ser imagens  e conceitos tão simples quanto fortes, caso contrário, arriscava-se a que não tendo sido encontradas as razoes no seu universo restrito, o seu empenhamento seria também reduzido. Daí à derrota ia um passo…..
Mas hoje a comunicação está super desenvolvida, só que, faz parte dos meios bélicos…. Utilizando os mais primários sistemas de mistificação, cabe à comunicação social o papel de levar as populações, a ideia de guerra limpa sem contacto, sem sangueira, sem morte visível. O que é verdade é que os países atacados ficam devastados, Com baixas civis enormes, militarmente subjugados e economicamente destruídos…. É limpinho!!!! E da parte do agressor não há mortes a registar..... Parece batota!!
A primeira das três invasões Francesas, (Junot) parou apenas em Lisboa. No entanto e apesar das diferenças evidentes entre ambos os exércitos, com maior pendor para os "francius do espirgardu", a vitória, nem após a terceira leva invasora foi total. Apesar da enorme vantagem, militarmente falando, nunca foi possível a vitoria total. As mortes de parte a parte eram astronómicas. Porque os portugueses e ingleses comandados por um inglês(o Duque de Wellington) morriam aos magotes, tal como os franceses, em tenazes contendas...    
Era esta a defesa montada pelos nossos, em três linhas, As famosas "Linhas de Torres".
1ª Linha – 46 km. Desde Alhandra até à foz do Sizandro, passando por Torres Vedras.
2ª Linha – 13 Km. Desde a Póvoa de Santa Iria até Ribamar, passando por Mafra.
3ª Linha – 3 Km. Perímetro compreendido pelo Forte de São Julião da Barra.
Isto para que se veja bem a dimensão das batalhas.....
Os Ingleses que nos vieram alegadamente ajudar e claro comandar, que é o que melhor fazem…. Um passarinho no entanto disse-me que estavam era a proteger os seus interesses económicos e hegemónicos, pois do outro lado estavam os seus dois arqui-Inimigos: França e Espanha….. A nossas reais cabeças coroadas, bem como toda a governação e chefias militares, fugiram “estrategicamente” para o Brasil…. E Ficou em Portugal um regente com ordens para não resistir…. E de Vileza em vileza se descobre que fruto de negociações e tratados o Comandante Junot, tinha ao seu serviço tropas de elite portuguesas….  A Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão. Um espanto…
 Não se julgue no entanto que isto foi um passeio até à capital. Para além das batalhas militares, os "francius" foram amiúde atacados, emboscados, e maltratados pela população entre as grandes batalhas…. Nalguns sítios o exército invasor deixou mesmo guarnição em diversos pontos estratégicos. Como foi o caso de Peniche e o seu estratégico porto de mar…. com a defesa tripla  dos três fortes virados ao mar. O da vila e o da S. João Baptista da Berlenga e o da Consolação. E neste caso a guarnição ocupava uma posição estratégica, mas sítios houve onde tiveram que deixar fortes contingentes para conter a população aguerrida e assim proteger a sua retaguarda. 
Ao fim de algum tempo e o facto de ambos os exércitos serem algo distantes dos altos desígnios “intelecto-politico-culturais”, o mais das vezes o que fizeram os Franceses, foi o que fariam se estivessem em casa. Coziam as suas "meletes" faziam as suas omeletes.e coletavam as sobras afectivas das "mezeles" nacionais....
Ora acontece que um cidadão francês, deu a palmada nuns candelabros e assim,de uma igreja da  entãoVila, de Peniche(foi Vila desde meados do Século XV) e a população moveu-lhe uma perseguição sem quartel. Dominique, assim se chamava o larápio, escondeu-se numa gruta à boca do mar e de muito difícil acesso. Mas vencido pela solidão ao fim de uns meses, em vez de vender o “espingardu”, entregou-se à populaça…. Não lhe hão-de ter dado beijinhos mas ao lugar deram o seu nome. E é assim que entre nomes, uns Históricos outros marítimos, ainda lá está hoje: a Cova de Dominique…… Um sítio cujo acesso foi “aplainado”e é facilmente visitável hoje em dia. E onde se pode deixar penetrar pelas peripécias desta História e ao mesmo tempo deixar-se invadir pela beleza brutal do lugar….
Resta acrescentar que esse sítio é um dos meus eleitos para pescar “Grades”, Coisa que o Dominique não pode ter feito, porque assim teria morrido de inanição. O que seria um contra-censo, no meio dos maiores viveiros naturais de Percêbes, Navalheiras e peixe, daquela costa…. Eis como e em conclusão, estão ligados pelo mesmíssimo facto Histórico, Vila Franca de Xira e Peniche…..

                        António Capucha

      Vila Franca de Xira, Novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Zé “Trabalho” e a “Bomba”

Vénus de Willendorf ou a"Bomba"
Zé (povinho, moiro de) "Trabalho"














José Manuel, figura mitológica da Escola Industrial e Comercial de Vila Franca de Xira, nos anos sessenta do Século XX, era-o sobretudo devido à sua contagiante boa disposição, e pela alcunha que ostentava orgulhosamente. Não sei como é que vou descalçar esta bota….. Mas é indispensável que partilhemos de que se trata esta alcunha, não só porque, embora isto se trate de uma ficção, o apego à verdade, ainda que traiçoeira ou embaraçosa, é sempre o sal destas coisas…. Tal como nunca se consegue ser convincente se apenas se contarem as coisas como elas são factualmente e em carreirinha cronológica. Também não se faz boa ficção, sem que seja o melhor espelho da realidade….     
Bom…. Deixemo-nos de filosofias antes que dê um passo para além da perna, e depois não sei como é que hei-de sair dessa. Adiante:
Pois o nosso Herói, tinha por alcunha Zé Trabalho…. E onde é que está o embaraço, perguntarão, e eu faço-o por vós. Sim …. Onde é que está o embaraço?
Está exactamente no facto de ele não ser: tal tal….. Trabalho….  Era mais: Tal….Tal…. Rima com trabalho, é masculino, tubiforme, tem tendência para se esticar. E é símbolo de várias coisas e por si só define um sem número de outras, que o são com’ó ………. A tal coisa……. Zé “trabalho”, era para os “stoures” e p´rás flausinas…. Para mim, esta e outras bizarrias linguísticas, era uma carta d’alforria do mamã chi- chi, mamã Có-có.
Pronto já está….. Estou a suar…. Espero que tenham entendido, se sim, valeu o esforço. Se não, ficamos assim que isto é um blogue decente….
Ele não era assim tão rapagão como isso, embora lhe sobrassem uns bons palmos para além de mim. Mas acontece que eu também era um tanto a atirar para o pequenote, é portanto natural que usando-me a mim como bitola, o Zé “Trabalho”…. É melhor começar a usar aspas…. Era portanto o que se chama um calmeirão. O sorriso estampado na cara vermelhusca, os olhos claros  e a mandíbula ligeiramente saliente, dar-lhe-ia o ar de um “Bulldog” se ele não fosse seco de carnes. Pelo contrário a sua “partenaire” símbolo sexual das raparigas eleita pelos rapazes, já se deixa ver, era a “Bomba”…. Uma rebolona irremediável, de farto “coxame”, nádegas opinativas e um pisar elástico, de uma leveza inimaginável em tanta carne.  A bata escondia a maioria dos seus encantos, mas a maltosa Zé “trabalho” á cabeça lá descobriu uma forma de lhe espreitar os segredos. A fértil imaginação mais as ganas que eram naturalmente muitas. E de tal forma que de um palminho de coxas, o mais das vezes apenas uma mão travessa, desnudávamo-las por completo. E aquela escadaria que ia do pátio das traseiras, ao terceiro andar do edifício era a “passerelle” para os voyeurs  (ou seria o segundo andar??? Vá lá, em que é que isso altera a autenticidade da ficção????) Onde é que eu ia???? Áh pois a escadaria, nós os pinantes, fazíamos-lhes uma guarda de honra entre os quais elas tinham que passar e cá do fundo da escada tirávamos as medidas devidas à nossa curiosidade enquanto elas subiam. As que seguravam os vestidos é porque eram “frascos”, e por isso, que não pelo pudor do acto, não suscitavam curiosidade alguma. E aqui para nós que ninguém nos ouve, a sua virtude era a mesma das outras…..
Está bom de ver que o Zé “trabalho” e a “Bomba”, eram os reis do Carnaval que era a nossa vida… Um eterno Carnaval!
O bom do Director, o prof. Serra, também conhecido por: TIM TIM, terá reunido o tenebroso conclave e mandou construir ao fundo das escadas um muro de uma altura de uns dois metros, e pôs lá de plantão um continuo, que era o gajo da mocidade portuguesa, o Sr. Moreira, para impedir que os rapazes parassem embasbacados nas imediações. O muro estupidamente alvo e bruto, qual Adamastor branco, foi de imediato baptizado de: MURO DA VERGONHA….. E um coro de assobios presenteava a pudica edificação… E os conflitos fronteiriços davam-se amiúde e cada vez mais violentos…. Castigos exemplares, que chegaram à expulsão da Escola só porque estávamos na idade de ter as hormonas aos saltos….
Uns anos após ter saído da Escola, as coisas agudizaram-se até ao absurdo…. A coisa meteu policia, PIDE e tudo…. Uma vergonha.
O edifício pertence agora à Misericórdia e não sei se mantiveram o muro como monumento à estupidez, à pequenez e ao puritanismo hipócrita. Não me parece, no entanto, que fosse o tipo de atitude passível de ser tomada por esta instituição….  Estou a vê-los mais a rezar pela remissão dos pecados dos malvados rapazes e relapsas raparigas, de permeio com a salvação dos aflitos, a conversão da Rússia……etc….etc…
Pois ….. A “Bomba” engravidou ainda aluna da Escola. E outras se lhe seguiram. Não se provou, no entanto, que o Zé “Trabalho” tenha metido p’raí, prego nem estopa…. Mas que alguém meteu…. Áh lá isso meteu…..

                            António Capucha

          Vila Franca de Xira, Novembro de 2010    

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Haja braço, ou o pescador d’água pé

Cruz dos Remédios - Peniche

O braço esquerdo e o indicador esticados e a apontar o chão fazendo um ângulo de 45° com o pavimento onde o pescador firma os pés. Constitui a régua onde se medem os tamanhos dos peixes que se pescam. Com os devidos descontos, naturalmente…. Que isto do tamanho do que se pesca tem mais a ver com a vontade que com a realidade.
Pois…. Então o braço esquerdo é a escala onde desliza o indicador da mão contrária (a direita) no sentido descendente até ficar definida a dimensão da pescaria. Haja braço, que ganas não faltarão. Se o bicharoco for maior que o braço, então a “impostorice” passa a ser medida em léguas, que é o sistema em que se medem as aldrabices. (ex: bom isso é uma treta maior que a légua da Póvoa)….
No meu passado recente de pescador viciado, é expressão maior das minhas frustrações a especialidade em pescar “grades” designação que na gíria define não pescar nada, O meu ar compenetrado e a roupa de ir à pesca que rescendia a “pexum”, para quem me visse nesses preparos, não diria da minha aselhice… Havia de parecer-me mais com um pescador daqueles de Peniche, a quem copiei o estilo que não a técnica, que infelizmente nem dá para copiar, envolve um sem número de saberes e instintos. E se os saberes se podem ensinar, os instintos não! Ou temos ou não temos….
Claro que eu era um mestre nessas coisas de “empatilhar” anzóis, usar as linhas certas e tudo o mais. Lembro a propósito uma cena em que estava a pescar em frente à casa, na “Cruz dos Remédios”, e uma família de “morcões” que vagueava de deslumbramento em deslumbramento no promontório que leva ao Cabo Carvoeira, planta-se ali ao pé de mim. Nisto o “morcão” Alfa, chega-se mais a mim e com a natural informalidade dos homens do Norte, ao ver-me “empatilhar” um anzol, diz: “Entom” pica ou não pica? E eu com o ar de enfado estudado para estas situações respondo que não pica nada e que aliás eu sou pescador de grades É pá pode lá ser!!!! “Bocê” deve ser um “granda” pescador, estive aqui a vê-lo empatilhar o “inzol” e até disse aqui à “Micas” ( Micas era a fêmea Alfa): Óh Micas, ora aqui está um pescador a sério!!!! Nunca tinha visto empatilhar assim um “inzol” ensina-me? Claro respondi…. E passei o resto da tarde a industriá-lo nos volteios da linha. Isto enquanto a costumeira “grade” ia tomando forma…
A “morconzada” prosseguiu no seu deambular deslumbrado pelas belezas naturais do sítio, e eu aproveitei para levantar a cana e recolher a linha, não sem que me ficasse lá tudo…. Anzol, chumbada e uns metros de linha…. O trivial na vida de um aselha…. Um “pescador d’água pé”……
Se por acaso fisgasse qualquer coisinha lá ia eu para a tasca da Vila Maria misturar-me com os restantes Pescadores, como eu achava que era, e até o mestre Zé dizia que me tinha visto a tirar um “badejinho”. Isso merecia mais uma ginginha….
Nos primeiros tempos desta actividade é que havia de ser um quadro lindo. Além da referida indumentária sebenta e do odor pícaro a “pexum”, por causa do isco, que não do pescado, deve-se acrescentar uns botifarros medonhos da tropa, mas que me protegiam os tornozelos das irregularidades das rochas. Que era a “vegetação” que mais proliferava na zona…
Lá ares dava eu. Tal como empatilhava anzóis com grande desenvoltura. O pior era o resto!
Quando o meu filho tinha p’raí uns doze anos ofereci-lhe uma cana, carreto e o mais indispensável à pescaria. Como paga o gajo deu-me um bigode que até me envergonhou. Então não é que o malandreco me tira dois Sargos cada um a vencer-me aí três quartos do antebraço esquerdo, bem medidos…. Sacaninha….. E mais ...Com um gozo do caraças comeu-os ao Jantar com requintes de malvadez…..
Isto foi a “gota d’água”….. Lá ficaram as canas à “patine” da arrecadação da casa de Peniche. Talvez que um dia venha a esquecer esta afronta e a saúde me permita voltar às grades, o aspecto é que terá que ser o dos pescadores de Domingo, porque a roupa foi queimada pela D. Maria, e as botas da tropa já não existem. Restam-me portanto os meus jeitos e instintos o que equivale por dizer que por tão pouco não vale a pena tornar às vergonhosas excursões piscatórias….
Estimados leitores…. Haja Braço que peixe não há-de faltar…..


                 António Capucha
Vila Franca de Xira, Novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Constantino

Madragoa
O bairro da Madragoa em Lisboa, é uma das sete colinas que são o colo e regaço da Capital. (como diz o poeta) Bairro castiço, onde mora gente castiça e com aquele casario característico da cidade pós terramoto. A população original, segundo rezam as crónicas era constituída por marítimos. Desde as descobertas que eram uma grossa fatia dos tripulantes das caravelas. Saltaram do Tejo para o Mundo de onde voltaram almirantes da bolina…. Capitães de Mar e Guerra, pescadores eles e varinas elas. Hoje em dia essa composição social cedeu à erosão dos anos, e essas profissões deixaram de ter razão económica de existir.  Mas não foram para muito longe do seu apego nostálgico ao Mar. Aí por alturas do fim da segunda guerra Mundial fizeram-se operários do Alfeite e da "Parrisson" (Parry & Son)…. Metalúrgicos da construção e reparação naval. O que é verdade é que mantiveram sempre aquele balanço do mar nos seus hábitos funcionais do dia a dia. Tal como elas não perderam aquele andar rebolado de ancas como se levassem a canastra à cabeça em cima da rodilha e o pregão na ponta da língua, agora entre as quatro paredes de tabique pombalino, a contar o fado para empurrar os afazeres da casa. O fogareiro a carvão já está à porta com a pinha a arder, por mor de que o vento ateie as brasas onde vão assar os carapaus já salgadinhos…
Na tasca da esquina onde debicam dois galos çó-cós à solta, que lá vão gerindo as investidas dos gatos. Mas quando a coisa empina, num voo rápido empoleiram-se na trave de carvalho da adega, e…. Assunto arrumado.
Na mesa do canto com um banco corrido de cada lado, está como é hábito o Constantino. E também como é habitual, não come nem bebe nada. Mas ri de orelha a orelha quando os homens entram e o cumprimentam segundo um ritual que há-de ter a idade dele, menos os vinte anos que levou a ficar homem e a poder ir para a taberna do Narciso. Ora o Constantino para que conste, não era um tipo normal. Quis a imponderabilidade destas coisas que nascesse deficiente. Tinha pouco mais que um metro de altura, mas não era anão. Se não houvesse com que lhe comparar a altura não se percebia a sua pequenez, já que era bastante bem proporcionado. Usava uns óculos garrafais de tartaruga sustidos por uma narigueta de respeito. Assim do tipo do gnômon de um relógio de Sol
 A sua cara de barba muito cerrada e rapada, dava-lhe um tom cinzento, fazia lembrar as gravuras do El Mano  (Bocage).
Porque não havia motivos para que assim não fosse, a sua expressão era um eterno e imutável sorriso. O pior de tudo é que todas estas anomalias eram acompanhadas de um evidente atraso mental. No bairro ninguém o incomodava por prazer, ou isso assim, não era o tontinho lá do sitio, e levavam pouco à paciência que alguém fizesse pouco dele ou o molestasse.
Claro que, sem que isso constituísse chacota, o Constantino fazia parte de alguns jogos, que longe de o incomodar até o faziam rir, e quer se queira quer não, ainda que neste caso, rir fosse uma cãibra da Alma, é melhor rir que chorar….  Aliás a brincadeira tem o seu quê, e algo que se lhe diga…. Provavelmente a coisa teve origem fortuita, e foi-se cimentando e apurando as cambiantes ao longo do tempo…. Seja como for o Constantino estava absolutamente convencido de que dava choque…. Dos eléctricos estão a ver…..
Então toda a matula lá do bairro quando chegava a qualquer lado onde estivesse o Constantino, cumprimentava a geral: Pessoal !!! e estendia a mão ao Constantino mas logo a recolhia e amedrontado perguntava: É pá “Costantino” …. Estás desligado???? Ele respondia maroto: ‘tou, ‘tou…. E o outro confiante dava-lhe o bacalhau… Mas logo de um salto retirava mão e dizia por entre esgares de dor: É pá “Costantino” pá!!!!! Enganaste-me….Afinal pá!!!! Estavas ligado pá…..
O outro ria até sufocar, um riso de boca escancarada sem vergonhas nem culpas ou desculpas, no seu universo de proto-felicidade. Que apenas as crianças e eles têm….  
Eu da primeira vez que estive com ele presente, foi na tasca do Narciso, trabalhava ali perto na antiga Emissora Nacional à rua do Quelhas, e calhou ir lá lanchar. Como é normal ,e aprendi a fazer, cumprimentei as pessoas presentes, e eis senão quando, o bom do Constantino se chega a mim de mão estendida. Diz logo um rapagão que beberricava ao balcão: Olha lá óh “Costantino” vê lá o que vais fazer ao homem???!! Atarantado foi a minha vez de sorrir com um daqueles sorrisos lorpas de quem foi apanhado numa das curvas das coisas. O calmeirão prossegue então: Então não vê o senhor que aqui o “Costantino” dá choques, o malandro. Vá lá Costantino” desliga-te lá para cumprimentar o Homem. Recuperei o domínio de mim, pois receava ter cometido alguma gafe protocolar….. e estendi-lhe a mão enquanto perguntava: você está desligado? ‘Tou, ‘tou. Então com um sorriso seguro aperto-lhe a mão e faço a rábula de ter sido atingido pela raiva de  Zeus…. O resto é sabido o gargalhar inocente do homenzinho e a felicidade geral por se ter cumprido o ritual bairrista….
As sandes de torresmos eram soberbas e o vinho era verde do pipo, da terra do Narciso…. Fiquei ainda uma boa meia hora à conversa com os operários do Alfeite…. As ex varinas agora esposas mães e donas de casa passavam disfarçadamente à porta e deitavam o olho para controlar os seus manjericos, não fossem aparecer-lhes em casa a cantar o Tiroliro….
Um dia normal….

                                    António Capucha
                   
                 Vila Franca de Xira, Novembro de 2010

PS – Dedico este conto aos meus colegas de profissão que são da Madragoa. Ao Jorge Mendes, ao Jaime Silva, o Alcides e outros entretanto já falecidos, mas não esquecidos, Alvarez, Sarafim Matos (o olhinhos)  etc…etc…

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

VERGONHA

Antiga sede da PIDE, na rua António Maria Cardoso, Ao Chiado, Lisboa

O dia que hoje é hoje, amanheceu com a nossa sociedade mais pobre.  Não é por causa da crise económico/ financeira, Não!
É que é dia de São incógnito.... Coisa que não merece sequer letra grande....
Acham que se quer mesmo acabar ou reduzir a corrupção?
A Procuradoria é tão vesga que não enxerga outra maneira de fazer a coisa.... Ideia peregrina esta, de com base em denúncias anónimas  de corrupção, dar origem a processos-crime.... Esta ainda é pior que a figura do "Arrependido" de má memória....
Vá lá ..... Mais um empurrãozinho e reconstroi-se a rede de informadores da PIDE!
Então os senhores que andam nisto há tanto tempo, ainda  não foi este o suficiente, para perceberem que a primeira coisa que se atribui, e muito bem, ao  denunciante a coberto do anonimato, é a falta de credibilidade?????
Que vergonha....
Também, ENORMIDADE por ENORMIDADE....São capazes de ter razão! Ainda ontem ouvi um senhor, doutor e tudo, mas seguramente néscio, e se calhar venal - Aqui fica a denúncia. Calhando também faz uma perninha como assessor ou vendedor, dos ditos "mercados" - Como ia dizendo o dito senhor disse, para quem o via e ouvia, que era natural, quiçá legitimo, que os "mercados" (aquela coisa  da  qual se diz estarem nervosos) almenjem, e por isso tudo façam, para fazer cair o Governo.... E só então se acalmarão..... A minha mãe, pessoa de vasta sabedoria Beirã, dizia que os nervos se curam com um pau de marmeleiro!!!! Ah 'tá bem .... Não dá.....E metáfora... 'Tá bem.... E o tal senhor doutor???? Esse não é metáfora que eu bem o vi e ouvi.....
Julgava eu que a forma de demissão dos governos estava constitucionalmente definida.... E que nós os eleitores é que substituíamos uns pelos outros, quando julgássemos isso necessário. Pois não senhor! São prerrogativas  dos "mercados e "mai nada"....
Portanto..... Venha lá a"Bufaria" de novo instituída, assim com'ássim, bate a bota com a "perdigóta"..... Isto é deles outra vez......
U'mápostinha em como o governo vai ao ar e é substituído sem haver eleições!?!?!?
Foi o Sampaio quem deu o mote.... No melhor pano cai a nódoa!
Fica em défice uma boa guerra punitiva, contra os turras.... Serve tudo: Pretos ou amarelos, Árabes moçulmanos ou nem por isso . Ou então estes que estão aqui mais à mão de semear: os Etarras, Bascos ou não.... Dali de Óbidos também dá..... Ou Cristãos do Ulster.... Serve tudo.... Mas por favor arranjem uma boa guerra ...... Já começa a ficar em défice.....
Sabem que mais, por minha parte e não anonimamente vos digo:
- E se fossem À MERDA!!!!!

                            António Capucha 
           Vila Franca de Xira, Novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

La Lys II

Corpo Expedicionário Português

Ruço de “má” pêlo, quer casar não tem cabelo! (Era um dito que a minha pobre mãe muito usava....)
Que bom que nós somos maioritariamente latinos de bom pêlo, cujo se vê bem ao longe, Bem castanho escuro, quase negro…. E para casar até temos "pôrras"…. São assim aos molhos as “franciúas” a quererem casar connosco, dizia o meu avô materno que esteve em França, no famoso Corpo Expedicionário de Infantaria Portuguesa, na 1ª Grande Guerra Mundial. (!914 – 1918) Onde combateu e sobreviveu à batalha de La Lys… Foi um dos poucos sobreviventes, já que os nossos foram quem sofreu  as mais pesadas baixas entre os derrotados Aliados…. Já nesses tempos éramos os rebenta minas da Europa. Os nossos avós morreram como moscas naquela batalha que se lutava galgando de trincheira em trincheira e ficando o mais das vezes entre elas, em estertores de morte.
A saraivada de tiros a que não faltava o poder das explosões e fragmentação dos obuses, fazia com que quem se atrevesse a saltar da sua trincheira para se apossar da seguinte, defendida pelo adversário, lhe acontecesse o mesmo que a quem anda à chuva: molha-se…. No caso morria-se, fundamentalmente
Temos pois, que o milagre da vida em mim, é ainda mais milagroso, se assim se pode dizer.
Uma boa parte dos meus Genes arriscaram-se, na melhor das hipóteses, a ser meio franceses. 
Ainda segundo o meu avô, elas eram quase todas ruças, de “má” pêlo, portanto, o que teria sido dos meus adereços latinos se.!?!?!?..... 
O bom do Zé Vaz Antunes, gabava-se de lá ter deixado as suas desgraças feitas, em segurança claro… Com doses de permanganato adequadas, que isto, quem vê caras …. Não vê pardalas…. (não é bem assim mas dá para entender) É que as mademoiselles, não resistiam aos seus olhos castanhos e aquele ar de Herói da Guerra, vindo de tão longe para defender a terra delas…. Não se tratava portanto de despojos de guerra, mas de cumprimento do dever diplomático de concorrer para o cimentar e aprofundar do espírito de Aliança que tal como hoje varre a Europa de Leste a Oeste e de Norte a Sul. E por acaso, tal como naquela altura, nos cabe agora a nós,"malhar como tordos", sem que se adivinhem os  favores das “meseles”, que não seriam em vão, como então também não foram.  Mas a defesa dos interesses da União, pois então, contra os jogos de guerra das agências “amaricanas” de “rating” contra a Europa dos Ruços de “má Pêlo", de novo nossos Aliados, chama-nos à liça, para que morramos como heróis, que é, pelos vistos, a nossa sina de portuguesitos valentes....
Cem anos depois, lá estamos de novo nos “cornos do boi”, que por acaso também tem olhos castanhos como os nossos. Esperemos que fiquem por aqui as semelhanças….
E foi assim que regressado então à sua Beira Baixa, venéreamente salubre,  aquele que viria a ser o meu avô, se dispôs a constituir prole. Da qual, entre várias dezenas de Antunes me conto eu próprio, que apenas posso de mim dar conta de uma vida muito menos sobressaltada, pelo que tenho que inventar, com recurso à muita manha, que só se adquire com uma vida ociosa, e  assim lá vou segregando a coceira de sarna, indispensável a quem acha e quer, dizer algo a alguém.  
Os ruços continuam a ser gente de “má” pêlo…. E nós, bem , nós com o nosso “decor” latino, até temos o Sócrates e o Cavaco, que tão bem nos representam.!?!?!? (ainda que faltem  peitos ao nosso primeiro) Pelo menos representam-nos tão bem como a raquítica, marreca e sem pescoço da Angela Merkel e o pisca-pisca pimba do Sarcozy, representam os de “má” pêlo…..

                                       António Capucha
                      Vila Franca de Xira, Novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Acabadinho de receber:

Acabadinho de receber:
Passei pelo blogue e quis comentar o que lá puseste. Esbarrei numa carrada de senhas e artimanhas que me vi à rasca.
Resolvi vir por este lado.
O que quis lá publicar foi o que segue:
 
 
"Não exordio porque também não venho perorar...Venho aqui apenas por isto:
-Lá porque sou teu amigo há anos mais do que os suficientes para te merecer uns mimos, nem por isso tens o direito de me estragares com eles.
Gosto tanto de ti, meu coiro!"
 
Se quiseres lá pôr, para que conste.
 
Abreijos
afonso

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Afonso Dias apresenta: 13 um novo CD de originais

Já aqui falamos dele, aliás, deles : do Afonso e do CD. Isto a propósito do seu lançamento- do CD - que teve lugar no museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. Não por acaso. É que esta terra é o berço deste como de outros intervenientes politico culturais. O Afonso, é talvez a  mais alta expressão,  desta nossa geração, nesta matéria. Estou absolutamente firme em relação a isso.   
Recebi entretanto um "e-mail", com as realizações integradas no lançamento deste seu último CD de músicas. Bem como um texto do próprio, que não resisto a publicar, no qual perpassa a sua inata informalidade  e autenticidade, e sempre dá para entender melhor a intensidade da intervenção deste cidadão do Mundo, com quem tenho o privilégio de ter cruzado a vida, de que resultou uma amizade que me enche de calor e conforta o espírito. Apesar da distância física que nos separa, não é esta suficiente para arrefecer seja o que for. É que, partilhámos, e partilhamos, tantas coisas, que ainda que pudéssemos somar algebricamente o que cada um nutre pelo outro, nem assim conseguiria ficar claro e cabalmente explicito, o que nos une.

Obrigado Afonso... Bem hajas.

           tonica

Afonso Dias - foto José Serra

outono / inverno 2010


afonso dias
apresenta

13

um novo CD de originais


que se chama 13 porque sim - e também porque tem nele 13 canções -  porque 13 é número de magias negras e brancas , associadas à sorte e ao azar - porque o azar é como a água benta: cada qual toma a que quer, embora haja acidentes e quanto a isso paciência, pá - porque a sorte é como a vida: melhora se a gente puxa por ela -  e porque as cantigas continuam a ser precisas para mostrar as nossas zangas, partilhar os nossos afectos,  esbanjar a nossa solidariedade.

e para denunciar a mentira e a iniquidade – sempre!

o afonso dias continua o que sempre foi – um cantor de intervenção, um cidadão atento e participativo, um militante da cultura e da vida.

13 é, pois, um disco de canções de intervenção - políticas, claro -
e de amor, evidentemente – e  divertidas, quase sempre, que para tristezas basta o que basta.


apresentações públicas já agendadas:

museu do neo-realismo - Vila Franca de Xira
16 outubro - 16 horas

convento S. José – Lagoa
28 outubro - 21.30 horas


auditório Maestro Frederico de Freitas
Sociedade Portuguesa de Autores – Lisboa
12 novembro – 18 horas

Círculo de Arte e Recreio – Guimarães
19 novembro – 21.30 horas

Biblioteca António Ramos Rosa – Faro
7 dezembro  - 18 horas

Biblioteca Municipal Vicente Campinas – Vila Real de S. António
10 dezembro – 21.30 horas

Biblioteca Álvaro de Campos – Tavira
11 dezembro – 21 horas


(falta fixar inúmeras datas – Lagos, Portimão, Loulé, Serpa...)






13
integralmente produzido no Algarve

é uma edição
bons ofícios – associação cultural

bonsoficios@gmail.com
pechão – olhão
algarve





Notas para um curriculo, pedem-me.
E com essa de eu escrever a meu respeito é que me tramam...

Digo o quê?

Que sou cantor, compositor, poeta, actor e "dezedor" de poesia há dezenas de anos?
Que já gravei este mundo e o outro de discos e CD's:
    4 álbuns com o GAC nos anos de Revolução,
    6 CD’s de originais a solo,
    1 CD infantil,
    9 CD’s de poesia (do projecto “selecta”)
    3 CD's de poesia (do projecto Cantando espalharey)
Que ainda só publiquei 2 livros de poesia e tenho alinhavados outros 2?
Que escrevo crónicas em jornais para aliviar inquietações cívicas e zurzir algumas cabeças brutas?
Que já fiz centenas (muitas!) de espectáculos, recitais, serões, tertúlias...? E sempre nas melhores companhias – Manuel Freire, Fanhais, Fanha, Zeca, Tino Flores, Fausto, GAC...
Que estou sempre com, pelo menos, mais um projecto em carteira?
Que estou sempre disponível para a amizade e a solidariedade?
Que amo os meus filhos, os meus netos, a minha mulher e os meus amigos?
Que sou um maratonista da vida?

E a quem é que isso tudo interessa?
O que interessa mesmo é não ter pressa e não perder tempo.

 afonso dias

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Reedição de: A cataplana

Agora que sei "importar"  imagens e outros rigores destas coisas dos blogues. Resolvi reeditar um texto já aqui publicado, mas por inépcia minha, na altura ainda não consegui passar as imagens para o corpo do blogue o que lhe retira uma boa dose de impacto. (se se derem ao trabalho de comparar com a anterior publicação, vão ver que me dão razão...)
O seu nome é: A Cataplana, (um texto um tanto mais longo que o habitual, mas verão que vale a pena.....) E na altura foi dedicada a um grupo de comensais , queridas amigas, entre as quais conto, esposa e amante numa só pessoa - É obra heim!!!...- Trata-se de uma visão jocosa e provocadora da natureza feminina. Esclareco já à partida que não se trata de uma posição em relação à condição feminina.


                António Capucha
              Vila Franca de Xira, Novembro de 2010


                          A Cataplana                                      
                        

Cataplana aberta


Ao contrário do que o nome possa sugerir, a cataplana é tudo menos plana. Há-as de diversos materiais, mas a cor e material dominante e tradicional, é o cobre. Quanto à forma, é consensual. As duas meias luas articuladas de um lado. E do outro, um fecho de mola. Fechada – quase hermeticamente - assemelha-se a uma lentilha gigante. Aberta e vista do seu lado de dentro, são claramente duas bacias geminadas, destinadas a conter qualquer coisa que se lhe queira meter dentro. Já pelo lado de fora, não sei como dizer isto…. Digamos que se as mulheres usassem armadura, seriam a cobertura traseira, ao nível dos seus opulentos quadris. Mais não me atrevo a dizer porque isto é um assunto sério….      
Prossigamos!....
Este apetrecho de cozinha, como já se disse, feito em cobre, acrescenta-se agora: martelado, chega às nossas cozinhas cristãs pela mão dos artesãos árabes. Árabes, que à época eram quem detinha a organização política e social aqui neste corredor ao Sol. Eram portanto quem podia usar o martelo, sem que tal fosse tido como acto, ou tentativa de agressão. E no caso usaram-no para legar à descendência, este precioso artefacto, que faz maravilhas às nossas papilas gostativas. E de tal forma as excitam que o fogo do “pecado” só se aplaca com outro pecado igualmente ardente: um bom vinho – é o chamado contra-fogo. O pior, ou o melhor, é que ao fim do terceiro ou quarto copo, excitados pelo xarope e pelas conotações lúbricas da forma da cataplana, ficavam, os pacóvios dos machos ibéricos, nossos avoengos, muito empolgados. E alarve, parva e gulosamente punham-se a tirar medidas às cataplanas das suas “matronas”, que à pala disso, lá iam fazendo o gosto ao dedo, que é como quem diz….  Claro que isto é pouco Cristão, mas - e como Deus escreve direito por linhas tortas, o lado positivo disto tudo é que assim se foi alargando a prol e fundamentando o que viria a ser a nossa civilização.
Eis como – e pouca gente sabe disto – a cataplana está na origem do crescimento demográfico da nossa população. O que se sabe, é que quando já eramos mais c’ás mães, acabamos por correr com a moirama daqui p’ra fora e gamamos-lhes os martelos mai’las cataplanas.
Bom, mas deixemo-nos de “estórias” e voltemos ao cerne da questão. Esta ferramenta, dadas as suas características – o ser hermética e tal – confere-lhe a capacidade, a vocação por assim dizer, de coser (assim mesmo, com ésse) os sabores dos diversos ingredientes que se lá puserem. Adicionando um pouca de gordura vegetal, casa na perfeição toda a casta de legumes com, preferencialmente, peixe, mariscos mas também carne de qualquer ordem. A norma é que o lume tem que ser parcimonioso. A cozedura lenta é a norma nesta, como noutras coisas boas desta vida.
 Nos nossos dias em que, dada a refinação dos nossos modos, nos transformamos em seres muito sofisticados e de “lambões” passamos a degustadores, pois então!...
Esta característica, de cozinhar lentamente, favorece e muito os actuais preceitos sociais, pois deixa tempo para o convívio, enquanto vai fundindo os sabores. E por esta razão e outras que não vêm ao caso, é amiúde o repasto tipo, das reuniões das nossas actuais “matronas”, (fig. abaixo)
A matrona Montserrat Caballé
Cujas socializam entre si trocando, além de mimos, “tamparoweres” e mistelas da “Avon”como se de “tramoços” se tratasse. Adiante…
Só quem nunca tenha passeado nos bairros suburbanos de classe média, aí pelo meio-dia de Sábado é que nunca ouviu, o grito de guerra que ecoa pelas esquinas: Meninas… “Qué’-se” dizer, meninas, meninas, bom, digamos que sim!... (para ler como se um pregão de varina se tratasse)…A cataplana, está ao lume, vamos aqui badalar um pouco, enquanto apura!... Bom…
E desta forma, polida, lá vão confidenciando umas ás outras, segredos de “polichinelo” e as mentiras que todas sabem sê-lo, e que sem excepção passam impolutas num tácito e muito elaborado jogo, mente tu que eu acreditarei, “óspois” trocamos: minto eu que tu acreditas… Este jogo vem desde o tempo em que o primeira macaca desceu das árvores e se tornou “Mulher erecta”. Não se sabe muito bem o que é que ela endireitava, ou se era por se por de pé, que se dizia dela, ser “erecta”. O Kama-Sutra (manual de posições) da época, era muito menos vasto, e asseverava muito prosaicamente o “decúbito ventral”, versão articulada, como a posição normal da fêmea, que ganhou o cognome de “quasi-erecta” porque  só se punha de pé para mandar vir… Pode no entanto agora, com alguma segurança, afirmar-se que tinha o condão de endireitar uma coisa nos “Homo-Erectus” que está provado “erectava-se” por influência directa dela. E esta é que é a verdadeira e científica razão de ser: “erecta”, no sentido de: aquela que “erectava”. (Dicionário Porrinhas)
Bom voltemos ao jogo…
O objecto fundamental deste jogo é a disputa de tudo. Seja o que for. Tudo e nada será matéria de contradição, sendo no entanto material mais utilizado: o aspecto físico próprio e o das outras comparsas, os seus meninos, os maridos… Ah e os trapinhos, nunca esquecer os trapinhos. Um exemplo disso – e escolho ao acaso - são os seus maridos. Estes têm sempre em triplicado tudo o que os das outras é suposto serem, ou terem. Os meninos idem, idem… As meninas estão todas no terceiro ano de “Bárbies”. Quanto aos trapinhos, Uiiii, nem ouso tocar nessa matéria… As suas regras, (as deste jogo) cujas nunca ninguém definiu, são no entanto sobejamente conhecidas de todas as participantes.
Claro que há improvisos, quem por este ou aquele motivo não tiver marido, ou filhos, ou ambos, pode sempre arregimentar uma qualquer figura estilística que o substitua. E há sempre um sobrinho para fazer as vezes de “vingador”. (adiante se verá porquê vingadores) Ah… Já me “desquecia”, é rigorosamente proibido jogar com os maridos das outras…. Adiante…
A “codrilhisse”…. Cala-te boca!.... É assim que se chama o jogo, é assim como um jogo de xadrez em que se mudam as regras a cada jogada. Percebeu? Não? Nem eu….
O que é verdade, verdadinha, é que línguas afiadas cortam o ar como chicotes dizendo coisas de assombro. Quem arrancar, AAAAh’s e OOOOOh’s, mais expressivos, demorados e densos, ganha o bacalhau. Porém, lá por dentro, onde o “tico” e o “teco” circulam a não sei quantos G Hz de velocidade - talvez não sejam assim tantos!... A actividade é frenética. Pelo canto do olho todas espiam todas, anotando mentalmente todos os pequenos - ou grandes - defeitos, descuidos ou erros cometidos à sua volta. Basta multiplicar todas por todas, para se fazer uma ideia da estafa para os pobres “ticos” e “teços”.

tico e teco

Exemplos, querem exemplos… Não percebo qual a necessidade, mas ‘tá bem. Lá vai:
(mentalmente)
- Pois filha, fala p’rái. Apesar de só comeres tiras de coiro, estás mais gorda que uma bácora. Atiras cá uma cataplana que dava p’rá casa real de Espanha mai’la família do Cavaco Silva e comitiva… E a roupinha… Sacos de sarapilheira de cinquenta quilos…. Agora alto e bom som: - Oh Marília, estás muito mais magra, como é que fazes? Responde a interpelada de viva voz:
- Oh querida! Nada de especial… Faço muito exercício e uma dieta “Amaricana”.
Agora em surdina: Fuinha… Escanzelada… Deve ser por seres tão boa que o teu marido me deita olhares gulosos! Pudera, com o que tem em casa!... Está farto de roer ossos… E depois, vestes-te como se fosses a “Twiggy”, só que és p’rái do tempo do “Fons-Hinriques”... Galdéria… E os sorrisos acompanham esta guerra surda mas nunca declarada nem assumida…
De repente, cortando esta torrente de mau estar, lá do canto ouve-se: O meu marido vai comprar um “Bê - Mê - Dâblio… Cresce um coro entre o efusivo e o desdém enjoado: Que bom querida!... Que bom!….
Deves mas é andar a ganha-lo pelas esquinas!... Lambisgoia!.... Claro…. Isto pensaram todas em uníssono, (pensar em uníssono? Compreendi-te!...)
Como se deixa ver, as regras, se as há, são mandadas às urtigas, e é o vale tudo que impera. Mas claro… Claro que são amigas!...isso nunca esteve em causa…
Depois abre-se a cataplana e o seu perfume serena tudo e todas. É engraçado mas comer bem, em regra eleva o espírito, até às mulheres!...
O vinho escorre-lhes pelas goelas, bebem como se de homens se tratassem e o efeito não se faz esperar. Como é sabido, estas coisas têm três distintas fases. Primeira, a euforia. Segunda, a melancolia. E por fim, se não se tiver parado de beber: a prostração. 
Sorvidos que foram os primeiros golos, as comensais, individualmente consideradas, acham-se imbatíveis. Todas se consideram controladoras de tudo e todas as que a rodeiam, e as mais belas e esplendorosas criaturas. Não lhes cabe, por assim dizer, uma palhinha na “pandeireta”. Evapora-se a inveja e dissipa-se o azedume e hei-lo que chega, pujante, vigorosa, avassaladora, a segunda fase: A melancolia. Escorre viscosa por toda a sala, é uma comoção colectiva. Afinal sou uma “matrafona”, (não confundir com as: marafonas, bonecas de trapos, lindas, da aldeia de Monsanto)
marafonas




matrafonas






Já olhaste bem para ti por acaso? Eras tão bonita… Os palermas andavam a rapar à volta, vinham comer-te à mão… Agora, tens uma tromba que parece uma máscara Inca, o viço das carnes, murchou, a “virgínia”, que era uma rosa em botão, parece mais um “charrôco”…. Ai…Ai… Mais de metade do que consigo surripiar ao aperto de todos os meses, vai para “betume pedra” e p’rá Micas cabeleireira. O meu homem é uma seca, vem p’rá cama a cheirar a álcool e a colónia barata, das putas. “Odeispois” comigo, cruzes… Que vida!... Que merda!... O que me vale, são os meus meninos, queridos meninos….
E o sublime e genuíno sentimento maternal irrompe devastador. Comoção colectiva… Mas nenhuma dá pelo facto de isto ser uma onda gigante, colectiva… Todas por igual acham que é um assunto só seu, pessoal. Ai os meus meninos….
Os queridos de sua mamã… Como se fossem a extensão do seu ser, os filhos machos são para as suas mães os “Zorros” da história, que humilhando sexualmente as garinas, vingam as frustrações  das suas progenitoras, que por sua vez, terão sido humilhadas da mesma forma no seu tempo.    
Até que o Sandrinho, (assim se chama o “bacorito” sem pescoço) è muito bem aviado…. Não sai ao pai não…. E é tão bonito… Parece mesmo um daqueles retratos da “OLA”...Quando for grande hão-de ser assim de gajas Atrás dele… E ele numa de desprezo, nem as olha e quando pousa o olho numa, Zás… Com o seu “Big-Bizu” racha-a “dáltabaixo”.....
Big-Bizu



Essas malucas têm a mania que são boas. Mas ficam a saber que a única boa a única que ele quer, é a sua querida mamã.     
Por estas e outras razões, fica claro porque é que os homens têm atitudes machistas. Não se está a ver quem os educou para tal, pois não?
Estes sentimentos pouco edificantes, são por assim dizer a fronteira para a terceira fase. A prostração insinua-se ao de leve, o negativismo mais atroz, que de leve, passa rapidamente a pesado… Os olhos entaramelam-se, a voz tropeça e os jarretes claudicam. É física, óbvia e evidente a altercação. O sistema nervoso central, abre brechas por todo o lado. Mas a “psiké” continua a ser cabeça de cartaz. A fase aguda é cada vez mais evidente. Ouvem-se coisas de estarrecer, uma grita que já foi actriz de cinema e que até ganhou um Óscar. Só não sabe que é feito dele. E o príncipe do Mónaco chegou a propor-lhe juntarem os trapinhos, mas na altura não lhe dava jeito e a coisa ficou por ali, pela frustração do príncipe… Mas chegaram a beijar-se…. Pois claro…
A sala dá voltas e voltas a imponderabilidade é total, afinal o príncipe tem orelhas de burro e uma “piça” de querubim. O estertor leva a que se engalfinhem umas nas outras, num vale de lágrimas. Carnes, suor, ranho, base e rímel, misturam-se num cozinhado horrível… A cataplana jaz vencida e as garrafas tombadas são como o rei derrotado naquele louco xadrez.
Uma boa soneca deixará apenas uma dor na tola e um sabor a papéis de música, lá mais para o fim do dia.
Glorioso dia, que rica cataplanada…
Só de imaginar… Dói!  Que cena…
Custa a acreditar que criaturas, que, com a sua beleza esbatem a fealdade das rotinas diárias dos dias de hoje… As sublimes mães dos nossos filhos, nossas queridas parceiras, não só de sexo, mas de jornada, por vezes até amigas, companheiras. As mulheres, que não só as suas “cataplanas”, estão ao nosso lado para o melhor e o menos bom. Confesso, que por vezes nos estão por cima… São-nos superiores, a bem dizer…! É consensual, que nos dão lições de como se sofre com estoicismo e são já hoje, nestes momentos mais chegados, nossas concorrentes na chamada escada do sucesso. È justo que se diga, por ser verdade…
Mas então como é possível, aquela loucura insana á roda da cataplana? Ora, está bem de ver! Tal como nas moedas, há duas faces, distintas e manda a retórica destas coisas, que contraditórias entre si.
A cataplana, é portanto e aqui, motor de reflexão sobre a natureza humana feminina. E não uma panela bizarra, que como já se disse, aberta e vista pelo lado de fora, parece a “peida” duma gaja boa….
Gaja boa com armadura, vista de frente
                        António Capucha
         Vila Franca de Xira,Outubro de 2006



                                                   

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mohanima



Mohanima, peço desculpa se não for assim que se escreve. Era, espero que ainda o seja, um negro guinéu cujo nome indicia ser de uma das etnias muçulmanas, e que estava para ficar no RI 5   das Caldas da Rainha. O bom do homem era assim para os trinta aninhos bem puxados, mas como não tinha família nem casa para onde ir, foi ficando no quartel com a tolerância do Comando. A sua figura desencadeava de imediato  simpatia e a vontade de lhe fazer bem. Invulgarmente pequeno mas proporcionado, negro retinto de musculatura impressionante e com uns pés de um tamanho que lhe dariam para dormir em pé… Claro que havia uma contrapartida para a generosidade do Comando. Estava encarregado das piores tarefas, a que os outros soldados fugiam como o diabo da cruz. Mohanima, tratava das pocilgas da unidade…. Onde chafurdavam uns bácoros e bácoras de criação, para os Sr.es comandantes, messe de oficiais e assim…. O comum dos mortais bem podia esperar sentado que nem o cheiro de febras destes animais lhe iriam passar debaixo dos narizes….. Uma unidade modelo até neste particular. Os privilégios a quem são devidos e “mai nada”…. O resto era disciplina…. Na justa medida da protecção e garantia destas premissas…. (os privilégios)
E isto é infelizmente verdade, e transversal a toda a tropa por onde andei. E andei por muito lado. Havemos de voltar a isto noutra altura…..
Agora é o Mohanima….. Pois este Pim-Pam-Pum, levava as suas tarefas muito a sério como se disso dependesse a própria vida, e até certo ponto assim era. E falava num português meio atravessado. Por exemplo, não dizia furriel…. Dizia “Esfurier", a que acrescentava invariavelmente o monossílabo : Pá. Aliás um estrangeiro, qualquer que seja, que aprenda a nossa língua de ouvido, a primeira coisa que aprende é a meter o: pá, coisa que quer dizer um milhão de coisas e serve de muleta a tudo e a nada.
Um belo dia o nosso Mohanima, diz-me: É pá, esfurier pá, Queres ir a ver? Os porca estás a "parire" pá. E lá fui para as “catacumbas” do Mohanima, onde de facto uma enorme Marrã se espremia convulsivamente, e expulsava a tempos um bacorito, ora rosado ora preto ou malhado envolvidos num véu individual, eram muitos…. Durante uma boa hora estive fascinado a ver aquela coisa notável do começo de uma vida. O Mohanima afadigava-se a limpar os bacoritos a levá-los para junto das tetas, e fazia sempre um festinha na enorme cabeçorra da porca sempre que passava por ela. Perguntei: é pá? Então se não há nenhum porco preto, como é que a porca tem bácoros pretos e malhados? E adiantei manhoso:  Mohanima… O que é que tens andado a fazer com a porca????…..
"Esfurier" pá…. Não "berinca" pá!!!! Não "berinca"!!!!
Mal Disparara isto, e já estava arrependido de o ter feito. Vi o amor e dedicação do pobre homem para com os bichanos e aquilo pareceu-me um hino ao amor total… Universal …. E de imediato realizei a espécie de boçalidade que a tropa, ou seja o treino militar, nos dá no acto em que nos rouba a identidade, sensibilidade, e tudo o que nos faça sentir expostos à realidade e a pensar pela nossa cabeça - anátema destas coisas da tropa… E substitui tudo isso por os sacramentais IN, NT e os superiores…. (IN - inimigo e NT - nossas tropas, superiores, vá lá saber-se em quê.). Tudo contra os IN, sem pensar, automaticamente… E repor a mordaça para as NT….  Dizem que reforça o espírito de equipa e a solidariedade em combate…. Não sei… Nunca entrei em combate…. Mas eles também não. Na sua grande maioria os comandantes, são muito bons é a mandar os outros combater. Como é que sabem então que assim é que é…. Assim é que se reforça a disciplina… São aliás tão bons a mandar combater como a manter os privilégios próprios. Também hei-de voltar a isto….. Por enquanto folguem….
Aquele quadro de natividade, portas a dentro do quartel, desencadeou-me um sem número de sentimentos, que o resto do dia já não foi o mesmo.
Fui dali à messe de Sargentos fazer o contra-senso de comer uma sandes de presunto, como já disse noutra ocasião: as melhores de unidade… E com o estômago mais aconchegado e aquecido pelo cafezinho no final, fui para o campo de jogos encostar-me a um pinheiro e meditar nestas últimas e poderosas revelações. Decidi primeiro, que nunca haveria de esquecer estes acontecimentos, e não esqueci. E segundo, logo ali promovi o Mohanima, de tratador dos porcos a: PARTEIRO DE BACORITOS…..


                       António Capucha
     Vila Franca de Xira, Novembro de 2010