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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Comer gajas

Pablo Picasso
A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica.

 
Termos e frases feitas, embora pretendam definir um quadro geral do assunto a que se referem, estão normalmente bem longe deste desafio. Nalguns casos, essas formas genéricas de definição de uma situação ou de um acto, é quase exclusivo de um naipe de aborígenes bem determinado e claramente indentificado. Temos então que coisas destas, amiúde não passam de “Jargões” de classes ou grupos bem determinados.
Anda-me este tema a bailar na tola, mas por ser de difícil abordagem, nunca passou de um pensamento retorcido, marafado…. É fácil conotar esta fraseologia com o indecoro, que nem sempre é preconceituoso.
Atenção preparem-se, há dois parágrafos que venho dourando a pílula, Não podem portanto invocar surpresa ou incómodo. Cá vai…. O tema é: Comer gajas!!!!! Porra, custou!!!!
Bom isto sugere e é, obviamente uma terminologia masculina e passado que foi o meu “naiívismo” nestas coisas, posso afirmar que não é de um grupo restrito, estúpido, boçal, alarve e sei lá mais o quê….. A grande maioria, esmagadora maioria mesmo, usa e sente estes termos como justos e esclarecedores das suas relações nem sempre sexuais - e com surpresa o verifiquei. Mesmo aqueles que disfarçando ou não, são esclarecidos e de formação alegadamente superior. Procedem em conformidade com o espírito, ainda  que, não usem os termos em questão….
Portanto estes termos apenas definem uma atitude ou cultura machista, cuja, valha a verdade, assenta no aparente pôr-se a jeito das “gajas em questão. Uma vez que nunca vi, nenhuma mulher que por essa razão esteja amputada de partes, quaisquer que sejam. O comer aqui é obviamente metafórico. E se se diz andar a comer…. Isso configura como primordial o acto de comer, de alimentar-se. Então em vez de super máquinas sexuais, o que são é glutões, para quem o acto de comer é o cúmulo sensorial das suas vidas.
Mas isto é apenas um lado desta intrincada questão. Não me limitei a observar e sentir o que os garanhões pensam e o que os leva a agir assim. Pessoas há, que passam por grandiloquentes criaturas, e que são escravos desta mentalidade…. Apresentam até idiossincrasias a perceito.
Por outro lado, mulheres modernas educadas e capazes, fizeram-me chegar à sensibilidade que; Claro que a sedução é fundamental, a empatia é absolutamente necessária, mas o facto é que estas “gajas” “deixam-se ir no bote” (outro jargão), porque buscam o prazer e é isso sobretudo, que as move. Afinal quem é que aqui come quem????
Claro que este grupo claramente definido, inverte a sua posição. Se nos homens o prazer de “comer” é partilhado pela esmagadora maioria…. Nas “gajas”, estas são uma clara minoria. Porque a maioria serve para perpetuar o machismo predominante baseada na sedução mercantil, a aparência primária e o superficial etc…..
O facto de eu ser macho, não me trás especialmente envergonhado desta menoridade. E o contrário também é verdade: Não posso sentir felicidade nem pensar em sexo como penso em bifes, feijoadas e por aí fora. E a Poesia …. O Amor…. E o ser superior que queremos ser? Se como é evidente o comer, acto de se alimentar resulta, noves fora nada, em excremento…. E se o “comer” metáfora de enganar, pode gerar prazer e vida, então não há dúvida nenhuma sobre qual é humanamente superior.
Uma dúvida no entanto me martiriza….. Como ser nado, custa-me a engolir que na origem da minha vida tenha estado esta estratégia de engano… De seduzir e fingir ter sido seduzida…..
Paciência!!!!!!
    

                    António Capucha

    Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O filho do Tupac Amaru « Revisto»

Naufrágio do San Pedro de Alcântara


Lembram-se dos “Tupamaros”?
Foi uma organização de guerrilha urbana uruguaia, que operou nas décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura civil-militar no Uruguai (1973-1985). O nome deriva do revolucionário Inca Tupac Amaru.
Aparentemente nada de novo que nos ligue a este grupo guerrilheiro que na altura era um movimento de libertação e tal como os seus congéneres hoje são só terroristas acossados por toda a sorte de regimens, desde os democráticos, legitimamente democráticos, quer-se dizer, até às mais ferozes oligarquias e anacrónicas estados de ocupação Imperialista que assim ilegítimam que se lute pela, Historica e justa independência… Enfim é no que dão as generalizações e a globalização. E não é lá longe onde estas e outras bizarrias ao Direito Internacional, eram habituais. Aqui na velha Europa também as há e bem ferozes…. À boleia do 11 de Setembro. Tudo é terrorismo mesmo as mais decentes e históricas lutas pela legítima independência. Mas adiante…..
O tal movimento: Os tupamaros, como se disse, foram buscar o nome a um chefe Inca que resistiu tanto quanto lhe foi possível à ocupação e roubo de património levado a efeito pelos Espanhois do Pizarro, e herdeiros, umas bestas apocalípticas para os naturais Sul-Americanos. O insuspeito estado Espanhol que não tinha assim tanto tempo como se supõe, (os reis católicos foram os primeiros da Espanha unificada em um Estado) enriqueceram exponencialmente com a prata e o ouro roubado às civilizações da América do Sul e Central e ainda foram meter o bedelho na América do Norte. Bom isto são factos incontornáveis e incontestáveis.
Ora o líder Inca resistente ao invasor, Tinha um filho que ficou ligado a Peniche tragicamente.
Conjuntamente com um carregamento de prata e outros valores, foi aprisionado e embarcou , com outros tantos índios, num navio espanhol, o San Pedro de Alcântara, com destino a Espanha e que veio a afundar-se à ilharga da Papôa….(vale a pena visitar o site: http://www.abc.se/~pa/mar/spa-histo.htm - e explorar o muito que lá se diz e que aqui não vem a propósito) Terá sobrevivido ao naufrágio, mas não a maioria dos tripulantes e os outros prisioneiros de guerra que iam ser apresentados na corte como se de papagaios se tratassem….(morreram 128 pessoas) Do navio e da sua carga resta nada sobre nada, porque na altura Portugal estava sobre ocupação espanhola… E as autoridades locais, fieis ao usurpador, garantiram a preservação do espólio e organizaram a sua recuperação de tal forma que uma iniciativa recente (terá aí uns quinze anos se tanto) para fazer um levantamento e uma classificação arqueológica, encontrou para além de inúmeras ossadas humanas no improvisado cemitério constituído pelos terrenos ali à volta, sete cães e um macaco e um soldado da Raínha!!!! Aí repousam os súbditos do Tupac Amaru, um Príncipe Inca  mestiço, (o pai era Europeu), suas famílias e tripulantes. Aqui para nós que ninguém nos ouve, estas trabalheiras tiveram lugar não pela vocação Histórica das autoridades locais da altura, mas de uma operação de charme para disfarçar a voracidade em construir junto à Papôa, um aldeamento no exacto local de eventual interesse Histórico. Macacos Hein!!!! Só que de macacadas já muito vistas.
Não sou pessoa de macumbas, e tenho pena dos pobres moradores… Mas isso lembra-me uma trama cinéfila Norte –Americana que versa a construção de uma "urbe" feita à surrelfa das superstições tidas e havidas de cemitérios Indios…. Só que neste caso, há que juntar uns quantos (muitos) marinheiros espanhóis, e então temos um misto de Poltergeist, e Pirata das Caraíbas uma mistura possivelmente explosiva …. Que Enfim…. Eu não queria morar lá….
À Peniche dos inúmeros naufrágios, fruto do mau feitio do mar, há que juntar esta isotérica e tétrica realidade….
Um cemitério Inca em Peniche, é coisa que não lembra ao diabo….
Se uma pontinha de inverdade houver nesta “estória”, que me fique tão longe Peniche, que lá não possa voltar a não ser de prancha de “Surf”, à vela, ou nem por isso!!!!


                           António Capucha

           Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Figurão

Fazendeiro ribatejano- fato domingueiro
Até a calçada gemia baixinho quando ele a pisava no seu caminhar elástico e com as botas de salto de prateleira chiantes, quando o pé dobrava, e tilitantes quando o calcanhar aterrava nas pedras e fazia tilintar as esporas. As calças estreitas cinzentas e de cós alto com braguilha e ataduras até ás costelas. Camisa sem colarinho virado, branca e com rendado de alto a baixo na abotoadura. Uma jaqueta negra arqueada nas costas e ligeiramente mais alta de frente , com as pontas sobre o abdómen bem domado pelos abdominais treinados no balanço do cavalo…
A cabeça altiva e de pele tisnada pelo Sol, de expressão serena e segura e no alto um chapéu à marzantina, inclinado sobre o seu lado esquerdo e levemente descaído para a frente.
Nestes preparos, que diga-se, era praticamente a sua farda de trabalho. Entrou no Café A Brasileira Ali na rua da Estação para beber um refresco e fazer tempo até que a sela estivesse pronta…. Tinha deixado o cavalo ali atrás no Lira para que lhe cosesse a cilha que estava a ameaçar partir-se… 
Já agora vale a pena meter aqui uma bucha. Naquele tempo a Vila era uma verdadeira metrópole de uma vasta região que ia dos montes quase até ao Sobral e de toda a Lezíria grande. O comércio da vila estava todo virado para essa realidade . Era, por exemplo, onde se podia encontrar toda a sorte de alfaias e outros artefactos e ferramentas agrícolas. E se por acaso o forasteiro tinha a desdita de perguntar a alguém onde é que arranjava isto ou aquilo, era-lhe logo indicado o "Lira".... Quando lá chegava  é que o homem realizava que lhe estavam a chamar besta. já que o Lira era um artesão que fazia e reparava albardas, selas e tudo o mais para bestas.... Esta era uma pequena velhacaria dos gentios que aqui deixo registada por ter uma boa dose de piada e porque era francamente inocente.... 
Onde é que eu ia??? Ah já sei....E já se vê…. Lidar com toiros, numa volta mais apertada partir-se a cilha…. Era queda garantida e até à colhida da besta cornuda…. Iria um quase nada…. E ele quer ver se continua direito e matador das senhoras da vila…. E não um Quasímodo disforme…. Ah, estão a vê-lo? Era o rapaz mais garboso da Vila. Agora coitado…. Foi um Toiro à desfilada…. Ouvia-se guitarras e fado Ribatejo nas cabeças que assim falariam e que tal diziam fatalistas. Um amor adiado para nunca mais….
Era pois para que este quadro “dantesco” nunca visse a realidade, que o Lira estava a coser-lhe uma nova cilha que havia de cingir o bojo do alazão…. 
Mas, ai de nós que apenas descrevemos as aparências…. A realidade é que este garboso rapaz, nunca viu um toiro a não ser nas corridas e no prato ou num dos muitos talhos do mercado municipal da Vila, só que uns de morte anúnciada e outros, mais que mortos. A sua ligação ao campo e à ruralidade era apenas familiar. Era filho de um abastado lavrador, que também não lavrava, era mais proprietário rural, que é outra coisa… Ia mais vezes ao Banco tratar de negócios, que à lezíria ver o gado ou as searas… Que também não amanhava… Sub-alugava a um qualquer gerente bancário que por sua vez fazia com que alguém fizesse, uns trabalhos de loteamento  e os alugava aos seareiros vindos donde calhasse, para criar o melhor melão do País. Pois este senhor e a sua esposa, estragaram o filho com mimos a tal ponto que as suas únicas actividades eram as rondas dos cafés e tascas (que saudades eu tenho das tascas da Vila), de onde voltava a casa a maior parte das vezes de gatas ou agarrado ao pescoço do cavalo para não cair. e o resto do dia, atafulhado de petiscos e vinho, nem jantava com a família,  começava a perseguir as criaditas lá de casa…. Miudecas…. Que as mais velhas eram mais bravias e um dia até a Mariana lhe atirou com uma panela acima e lhe partiu a cana do nariz…. Especializou-se portanto em cachopitas e em fazer olhinhos parvos às mulheres nos cafés…. Claro que o Pai o livrou amiude do correctivo dado por algum marido ou namorado que não aceitasse o dislate do sedutor Príncipezinho o  poeta de pé d’entulho…. O mais eram bazófias…. Figura tinha, mas mais nada além disso…. Figurão portanto era….. Que basta descendência deixou, já que figurões há-os aos centos….Apenas o melão e a verdadeira cultura taurina, continuam como sempre foram…. Esta fauna de Faz-de-conta, também está viva e embora se recomende, felizmente só volta nos dias de festa e é claramente um artigo para turista…. Como o “chocalhina com corna” de que falava o Raul Solnado.

                     António Capucha

     Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Adivinhe quem é...

Amigos de Peniche




Iniciamos hoje uma parceria com o blogue "Amigos de Peniche"que tem como razão de ser o apego comum à terra e ao mar que quase a cerca por completo. Não só a urbe e as suas gentes, mas também a paisagem única que a sua geologia criou. Peniche é,  vista a alguma distância, uma seta apontada ao coração do Atlântico. Temos para nós que, por muitas voltas que o mundo dê, o seu destino, e o das suas diversas expressões humanas é e será sempre o Mar.....
É pois com todo o prazer que aqui estabelecemos links ao seu mais expressivo representante na blogo-esfera.
 http://amigos-de-peniche.blogspot.com/
 Um abraço aos Amigos de Peniche.
António Capucha

sábado, 8 de janeiro de 2011

De vez em quando…

Pablo Picasso- D. Quixote

De vez em quando….. Vá lá…. Eu sei que custa mas..... Deves essa verdade aos teus leitores! Pronto está bem!!!
- Não é de vez em quando, mas … O mais das vezes, temos as emoções reflexões e outros produtos bio-cerebrais em tamanha confusão que se torna difícil extrair algo comunicável, inteligível. Dessa amalgama toda….. Mais…. Esse estado de “estupidagem” pode durar sei lá que tempos. Nada de muito dramático se a nossa tarefa for andar por aí perdido na vida. Agora se temos peneiras, que somos comunicadores, fazedores de “estórias” inventadas que pareciam ser debitar, debitar e mais debitar, num fruir constante e sereno…. Então isso não é dramático…. É mortal…. De muitas mortes…. Uma por cada coisa que á velocidade da luz nos cruza os neuro-sensores sem se deixarem identificar… É assim como estar a construir um puzle, onde as peças passam num ápice e não voltam… e nós ficamos com ar de “abécula” a contemplar o tabuleiro vazio… como o cérebro de quem o olha!!!!
E dói…. Dói como um amor  ou outra qualquer demanda não correspondida, iludida, ludibriada. E que a toda a hora se nos pavoneia à frente dos olhos em fintas e traições várias e feias. E isso…. Sabeis o que é isso de traições de um amor  ou algo não correspondido? É mais doloroso que uma verdadeira traição… É um quase nada, menos que nada até…. Nada negativo…. Nada -. É a dor de um dente que já não temos…. É sofrer de duas maneiras. Sofre-se por nos faltar um dente, a que temos que somar, a dor em si mesma…. Abominável!!!!
Dos “amores” que temos, se nos atraiçoarem, temos a memória para aquecer a Alma…. Agora dos que não temos, fica-nos tão só um conjunto de sentimentos canalhas, a tal ponto que duvidamos que nós sejamos nós.
Pois é companheiros e amigos. Estou a ser vítima de traição… Não a vulgar traição dos nossos. Mas dos outros que supúnhamos nossos…. Dos que em sonhos e divagações queremos nossos. Os sonhos são nossos. Inclusive o material de que são feitos, logo é tudo nosso…. Sim que os sonhos são matéria…. Que obedece a outras leis que escaparam ao Isaac Newton, um homem também não pode saber tudo, não é verdade!
Podem pois ter como certo, que os nossos objectos de sonho, não podem tirar o “cavalinho da chuva” como se não fosse nada com eles. É  e muito… Na pior das hipóteses, cinquenta por cento… porque se não fossem o que, e quem são, não seriam eles que povoariam os nossos sonhos….
Os sonhos são portanto propriedade colectiva…. E por mais prosa cinzenta que usem para me adormecer, ou estratégias, para me “chamarem à razão”, desta, ninguém me tira.
Fim de peroração!
  
                    António Capucha
      Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ATAQUE À CLASSE MÉDIA

Colbert
Cardeal Mazarino


ColbertJean-Baptiste Colbert, foi um político francês que ficou conhecido como ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV. Instalou o Colbertismo na França, onde teve uma grande importância no desenvolvimento do mercantilismo ou da teoria mercantilista, bem como das práticas de intervenção estatal na economia, que o mercantilismo advocava.
O outro artista, Mazarino, Giulio Raimondo Mazzarino, italiano como se vê pelo nome. Foi Cardeal e um completo estadista radicado na França que serviu como seu primeiro-ministro de 1642 até sua morte.
Um fez carreira como economista a pulso e o outro, transporta consigo o peso dos Séculos de sabedoria acumulada, de como se explora e mantém o pagode, e ainda se consegue ser admirado e tido como Santo…..
O texto que se segue é um extracto da peça: "Le Diable Rouge" (o Mazarino, já se deixa ver!) da autoria de Antoine Rault e se não estou em erro é de 2008. E estas duas personagens têm este diálogo absolutamente exemplar....

             António Capucha 
Vila Franca de Xira. Janeiro de 2011

ATAQUE À CLASSE MÉDIA

Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV:

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado… o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se…
Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: são os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável.

in Le Diable Rouge, de
Antoine Rault
PS - Se acharem que anda muito longe da verdade..... Podem patear.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Génese de uma crise

 


Este vídeo, é o exemplo mais expressivo que eu conheço, para esclarecer esta crise que nos metem pelos olhos a dentro, isto com uma mão.... Enquanto que a outra, no-la metem no bolso.
Pese embora a quantidade de gente alegadamente idónea que nos adverte dos perigos de brincarmos com estas coisas, porque podem "irritar e ofender" os mercados dos quais dependemos para nos financiarmos... Mal encapotada está a subserviência destes senhores à mentira global dos "Mercados". Não passam de empregados.... Funcionários.... Não me merecem crédito.
Esta apresentação trata-se de uma "charge" bem ao estilo britânico, fortemente caricatural, mas rigorosa na sua aparente frivolidade... Vejam e oiçam com atenção. Vale a pena....

               António Capucha

Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O “Baldemar”

Bangalô

Durante uns tempos fincou-se-me uma mania de passar uns tempos em Idanha-a- Nova, mais precisamente nuns “bangalôs” do Parque de Campismo Municipal, junto à Barragem Marechal Carmona de má memória, mas quis a vicissitude destas coisas que o sítio, ao contrário do tenebroso Marechal (ex Presidente da República de governos fascistas de Salazar) fosse de uma beleza excepcional e transmitisse uma paz de espírito que muito apreciava. Perto ficava a Senhora do Almortão, local de peregrinação, cantada e recantada, desde a sua beleza, aos cheiros de que a vossa capela cheira!!!  (Cheira a cravos, cheira a rosas, cheira a flor de laranjeira…. Olha a laranjinha que caiu, caiu, num regato d’água, nunca mais se viu!!!!) Toda aquela região ressoava a “adufes”, tamborilada por mãos ágeis. Tum….Ca-ta–tum-tum….Ca-ta-tum-tum……
A Noroeste e em ultimo plano, a majestade do maciço central da Serra de Estrela tendo em primeiro plano a serena albufeira orlada por pinheiros, sobreiros, azinhos e restante flora da Charneca, Era nesse quadrante  - Oeste - obviamente o pôr do Sol que entrava pela alma a dentro sem pedir licença. A Nordest recortava-se o cimo altaneiro do castelo da aldeia de Monsanto, iluminada durante a noite…. Fantasmagórico!!!
Para além deste enquadramento, a unidade turística, tinha, destacando-se do restante equipamento típico destas estruturas, uma muito boa, bonita e bem cuidada piscina adjacente ao Restaurante.
A excursão detinha-se, após uma longa viagem por estradas nacionais, (ainda não haviam auto-estradas) bem no centro da vila onde nos abastecíamos de quase tudo o que nos iria fazer falta nessa semana. Devo realçar as prioridades dadas aos queijos uns três ou quatro comprados na Cooperativa. Eram do melhor, a ombrear sem favor com os da Serra. Os rachados, eram os melhores. Paragem seguinte era no talho onde, 

Albufeira
os borregos e vitelas penduradas, fresquíssimas chamavam por nós. Metade de um presunto desossado e uma quantidade apreciável de morcelas cheirosas, completavam as mercas.
Depois descíamos a Alcafozes, onde fica o Santuário da Senhora do Loreto, padroeira dos pilotos e restante pessoal de voo.  E subiamos à esquerda para a serra do Almortão.
A minha tarefa diária durante a semana seguinte, era tomar conta do meu rapazola, o Francisco, que ainda não ia à escola e assim nos permitia fazer férias fora de época, o que era muito bom. A minha filha mais velha, a Rita, Já não alinhava muito nestas coisas e ficava com a tia, ou com a avó…. Todo o Santo dia aquela alma ficava de molho na piscina…. E eu controlava à distância enquanto do outro lado a  minha amantíssima esposa curtia o Sol e serenamente devorava os livros que havia levado.
Os dias pachorrentos arrastavam-se lânguidos numa cadência “modorrada”, neste frenesim que estais a adivinhar… Duas vezes por dia voltávamos a casa para encher as peles dos mimos que haviam sido feitos de véspera , à noite para não colidirem com alguma actividade mais importante…. O mais do tempo, era passado na enorme varanda a curtir o vozerio da passarada e a tentar capturar os enormes lagartos que habitavam debaixo da cabana, metendo bocadinhos de presunto dentro de um laço de cordel. Pois … ‘Tá bem deixa!!!!
Lá por cima também não se me dava apreciar as rondas das rapaces, em círculos largos elegantes…
Apesar de ser fora de época estival, aquilo estava suficientemente lotado sobretudo por gente do Norte. E um belo dia entre as lambidelas no gelado e a pachorra recostada na relva, grito para o meu miúdo que estava a olhar com muita insistência para a zona de separação crianças/adultos da piscina: Pra trás Oh Bal-de-Massa…. Era a alcunha afectuosa que lhe pus e que lhe assentava como uma luva ao seu feitio pacholas. Acto continuo um garoto enpertigou-se, olhou-me interrogativamente e dispara a correr direito ao pai que estava perto da Nita (minha mulher), cuja desatou a rir e levantando-se vem direita a mim. Ainda a rir…. Olha lá. Tu arranjas cada uma…. Disse… Então não é que o miúdo todo esbaforido chega ao pai e diz: Hó Pai… Hó pai…. Esta ali um menino que se chama Bal-de-massa!!! Não é nada…  Oubiste mal com certeza….Ele deve ser é : Baldemar (Waldemar)…..  Estava ganho o dia à conta dos morcões, pai e filho….. Durante o resto da nossa estadia foi motivo de sadia brincadeira….
Piscina



E ía muito bem com os queijos o presunto e as morcelas honradas pela companhia das bicas, uma espécie de pão de azeite quase sem miolo, saborosíssimo…. E vinho “pedra d’urso”….
E disto se fez uma “estória” porque de verdade feita. E tão verdadinha é, que ainda sinto os sabores e sou capaz de rir dos morcões….

                             António Capucha
     
              Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2011




Entremos com o pé direito na peroração deste ano. Este ou outros fetiches pouca diferença farão da mais que esperada, evolução negativa da nossa dimensão colectiva. Não alimento ilusões nesta matéria.
A primeira coisa a contribuir para a minha desilusão, será a mais que esperada reeleição de Cavaco Silva. Que não é um acto isolado, só por si…. Significa também que os outros candidatos paridos pelo sistema, não têm a suficiente distância das jogadas sujas e subterrâneas que lhes permita desmascarar o seu, dele C. Silva, jogo sórdido de servidor da causa pública….
É que ele não é só inábil…. É notoriamente incompetente (politicamente entenda-se) e do ponto de vista filosófico, será que o tem???? É um fervoroso adepto de que a politica é uma treta e a solução é sempre técnica e gestionária e aceita e defende o primado da lei concorrencial dos mercados sobre a autoridade do Estado. (o seu primeiro acto após a sua eleição para primeiro Ministro nos anos oitenta, foi a restauração e reabertura da Bolsa de Lisboa, que segundo ele, é condição indispensável para o funcionamento de qualquer economia livre) Pois agora se vê!!!!
Vai muito tempo que esta figura está portas meias do poder e o mais das vezes, ocupa sempre o centro desse mesmo poder. Que é a única situação que o seu descomunal ego aceita. O pior é que, como é habitual nestas coisas, os outros aspectos pessoais, não acompanham essa mesma dimensão. E é isso que faz dele um equívoco politico, e uma má solução para o país, como aliás se tem visto. Mesmo visto à lupa não se vê nada que tenha sido mérito seu, e um bem inequívoco para o País… Bem pelo contrário….
Depois e não desligado deste primeiro aspecto, o FMI, perfila-se no horizonte. Trata-se de uma entidade sisudíssima, bem ao gosto Nacional, e que aparecerá como um D. Sebastião, menos maricas, mas igualmente salvador das pobres almas Portuguesas, em conflito histórico entre o Capitalismo selvagem e o colectivismo compulsivo…. Esta mania de termos um Estado social e ao mesmo tempo utilizá-lo como se fosse uma entidade dotada de vida própria, e gastar os seus recursos à “tripa-forra” como se não fossem nossos e finitos….. Basta ver o que fazem todas as oposições…. Propõem sempre soluções que aumentam sempre as despesas do Estado, e depois dizem querer menos Estado, e até inventam combinações e trocadilhos: Menos Estado…. Melhor Estado…. Pois …. Palavras!!!!  E isto não é de agora quando a composição era a inversa, a coisa era a mesma….
No plano pessoal isto só pode correr melhor…. Sou um inveterado optimista. Fico mais velho, mais trôpego, mas sinto-me cada vez mais esperto…. Mais capaz…. Sinto que muito embora a culpa seja evidentemente de pessoas e que essas pessoas têm nome e são muitas, e eu e meia dúzia de outros: irremediável minoria, não damos para as encomendas e por vezes até nos enganamos…. Mas, como dizia, acredito numa espécie de humanidade cósmica, que pela lógica das coisas acabará por ter que ser aceite, contra alternativa nenhuma, mais lá para as “calendas”. As religiões de um modo geral também pensam coisas semelhantes em relação ao nosso destino cósmico, assumindo aspectos mais ou menos romanescos, mas o que também se prova é que não será o Marxismo o fim desta saga. Sabem o que é que eu penso : É que o que for soará…. Cá estaremos uns como eu e muitos como os outros e logo se vê como irá ser. Uma certeza tenho porém: É que quantos menos Cavacos Silvas e FMIs essa sociedade produzir, mais perto ficamos da solução….


                         António Capucha

         Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Atrasado.... Mas Natal, é quando um homem quiser, ou não é?






Mariani ao seu melhor nível. Aquele pôr de mãos, revela toda a sisudez.... Sim senhor.... Valeu a pena esperar por esta postura. Desde o Almirante, não o bardamerdas... O outro o dos canários... Aliás dos periquitos.... que não se via pose tão distinta e mensagem que tanto me tocasse! Fica a faltar uma criancinha loira, para ser igualzinha à Sagrada Família....
                 António Capucha
 Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010
      

Parto com dor

Parto

Num dia qualquer de um sombrio Outubro por volta das três da manhã, lá fora chovia que Deus a dava. E raios e coriscos fendiam o céu que se sabia estar por trás das grossas nuvens…. Uma “noite de cão”!!!!
Meio-deitada na enxerga uma mulher espremia-se toda para expulsar um bebé que faz nove meses trazia no ventre. A mulher tinha um ar bojudo de parideira veterana, mas a coisa não estava fácil…. Aliás, a coisa nunca é fácil….
Junto dela a D. Júlia, parteira que já amparara mais de duzentas crianças na sua luta desigual para virem ao Mundo. Na sua voz autorizada disse… Melhor, comandava: Vá querida … É só mais um bocadinho….. Agora, força…. E a voz acompanhava o esforço que pedia à parturiente….
Aquela espécie de inteligência cósmica a que chamamos instinto, força-nos a desencadear o nascimento e a abandonar a modorra do útero materno, quente e acolhedor, desconhecendo o desconforto ou a fome, para nos lançarmos num aperto hercúleo da “mater-vagina”, para o choque térmico do exterior…. Um arrepio percorre-nos a espinha ainda frágil. E sentimos algo desolador, violento, a queimar-nos os incipientes pulmões. Uma golfada de ar e um choro de morte. E aquele tan-tan… tan-tan….tan-tan, onde está? O que é isto? Estão-me a agarrar…. Que coisa dura é esta que me passam pelo lombo? Só lhe apetece gritar…. E grita! Grita como se o estivessem a matar.
A “prática” pega-lhe e coloca-o sobre o peito da mãe e ele sossega….. Áh…. Cá está o ”tan-tan” outra vez…. Estava a ver?!?! Ai que bom….
Não….. Não me tirem daqui!!! A mãe virou-o ligeiramente e tenta que ele mame. Mete-lhe o bico da teta na boca e aguarda que o tal instinto o faça chupar o colostro… O pobre besnico faz pela vida, confere a mãe, não sem algum alívio….. É todo normalinho….. Benza-o Deus!!!! Amanhã vigiar-lhe-á as fraldas a ver se as digestões são normais.
Adormeceu e a mãe vigia-lhe a respiração, e por fim ela própria cede à fadiga e fecha os olhos…. A D. Júlia, corre com todos do quarto e sai apagando a luz do tecto. Fica acesa apenas uma lâmpada de mesa-de-cabeceira, sobre cujo “abat-jour” repousa uma fralda branca que adoça ainda mais a luz do candeeiro. A esgotada senhora entreabre os olhos e sem se mexer contempla o menino… Ainda não sei a cor dos seus olhos, sussurra. Volta a vencer a estafa do Parto e adormece por fim e desta vez até de manhã.
Gloriosa manhã após a borrasca do dia anterior. O Sol invade o quarto, a mãe acorda e breves minutos depois o bebé vai tentando abrir os olhos feridos pela luminosidade circundante. Por fim, fica com eles abertos e aparentemente habituado à luz, contemplam-se mutuamente como que hipnotizados, dura uma eternidade esta co-identificação, ele fecha os olhos e boceja, posto o que lhe devolve o olhar, como quem diz: então és tu que eu conheço de te ouvir em ondas de ressonância amniótica…. E ela infere ser ele o carrasco que lhe fincava os pés nas costelas e empurrava…. Já tal não lhe parece, ali tão sereno, tão lindo o seu menino é o terceiro e tão parecido com os outros: O mesmo cabelo farto (dizem que provoca vómitos à mãe…. Âhhh… crendices!) e preto, a mesma pele morena, os olhos é que, e olha com mais atenção, é que são diferentes …. São assim de um verde escuro, verde garrafa…. De pupilas enormes e a reagirem bem às variações de intensidade luminosa.  E o mais extraordinário de tudo isto são as coisas que ela lhe diz. Como este prodígio criativo de mãe: - Só me apetece comer-te com beijos….. Lindo!!! E outras…. Sabem do que é que eu estou a falar, não sabem?
Também gostava de saber dizer assim coisas desta força, mas o que é que querem!!!! Cá vou alinhavando estas patacoadas e é um pau....

                            António Capucha

            Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010