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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O “Baldemar”

Bangalô

Durante uns tempos fincou-se-me uma mania de passar uns tempos em Idanha-a- Nova, mais precisamente nuns “bangalôs” do Parque de Campismo Municipal, junto à Barragem Marechal Carmona de má memória, mas quis a vicissitude destas coisas que o sítio, ao contrário do tenebroso Marechal (ex Presidente da República de governos fascistas de Salazar) fosse de uma beleza excepcional e transmitisse uma paz de espírito que muito apreciava. Perto ficava a Senhora do Almortão, local de peregrinação, cantada e recantada, desde a sua beleza, aos cheiros de que a vossa capela cheira!!!  (Cheira a cravos, cheira a rosas, cheira a flor de laranjeira…. Olha a laranjinha que caiu, caiu, num regato d’água, nunca mais se viu!!!!) Toda aquela região ressoava a “adufes”, tamborilada por mãos ágeis. Tum….Ca-ta–tum-tum….Ca-ta-tum-tum……
A Noroeste e em ultimo plano, a majestade do maciço central da Serra de Estrela tendo em primeiro plano a serena albufeira orlada por pinheiros, sobreiros, azinhos e restante flora da Charneca, Era nesse quadrante  - Oeste - obviamente o pôr do Sol que entrava pela alma a dentro sem pedir licença. A Nordest recortava-se o cimo altaneiro do castelo da aldeia de Monsanto, iluminada durante a noite…. Fantasmagórico!!!
Para além deste enquadramento, a unidade turística, tinha, destacando-se do restante equipamento típico destas estruturas, uma muito boa, bonita e bem cuidada piscina adjacente ao Restaurante.
A excursão detinha-se, após uma longa viagem por estradas nacionais, (ainda não haviam auto-estradas) bem no centro da vila onde nos abastecíamos de quase tudo o que nos iria fazer falta nessa semana. Devo realçar as prioridades dadas aos queijos uns três ou quatro comprados na Cooperativa. Eram do melhor, a ombrear sem favor com os da Serra. Os rachados, eram os melhores. Paragem seguinte era no talho onde, 

Albufeira
os borregos e vitelas penduradas, fresquíssimas chamavam por nós. Metade de um presunto desossado e uma quantidade apreciável de morcelas cheirosas, completavam as mercas.
Depois descíamos a Alcafozes, onde fica o Santuário da Senhora do Loreto, padroeira dos pilotos e restante pessoal de voo.  E subiamos à esquerda para a serra do Almortão.
A minha tarefa diária durante a semana seguinte, era tomar conta do meu rapazola, o Francisco, que ainda não ia à escola e assim nos permitia fazer férias fora de época, o que era muito bom. A minha filha mais velha, a Rita, Já não alinhava muito nestas coisas e ficava com a tia, ou com a avó…. Todo o Santo dia aquela alma ficava de molho na piscina…. E eu controlava à distância enquanto do outro lado a  minha amantíssima esposa curtia o Sol e serenamente devorava os livros que havia levado.
Os dias pachorrentos arrastavam-se lânguidos numa cadência “modorrada”, neste frenesim que estais a adivinhar… Duas vezes por dia voltávamos a casa para encher as peles dos mimos que haviam sido feitos de véspera , à noite para não colidirem com alguma actividade mais importante…. O mais do tempo, era passado na enorme varanda a curtir o vozerio da passarada e a tentar capturar os enormes lagartos que habitavam debaixo da cabana, metendo bocadinhos de presunto dentro de um laço de cordel. Pois … ‘Tá bem deixa!!!!
Lá por cima também não se me dava apreciar as rondas das rapaces, em círculos largos elegantes…
Apesar de ser fora de época estival, aquilo estava suficientemente lotado sobretudo por gente do Norte. E um belo dia entre as lambidelas no gelado e a pachorra recostada na relva, grito para o meu miúdo que estava a olhar com muita insistência para a zona de separação crianças/adultos da piscina: Pra trás Oh Bal-de-Massa…. Era a alcunha afectuosa que lhe pus e que lhe assentava como uma luva ao seu feitio pacholas. Acto continuo um garoto enpertigou-se, olhou-me interrogativamente e dispara a correr direito ao pai que estava perto da Nita (minha mulher), cuja desatou a rir e levantando-se vem direita a mim. Ainda a rir…. Olha lá. Tu arranjas cada uma…. Disse… Então não é que o miúdo todo esbaforido chega ao pai e diz: Hó Pai… Hó pai…. Esta ali um menino que se chama Bal-de-massa!!! Não é nada…  Oubiste mal com certeza….Ele deve ser é : Baldemar (Waldemar)…..  Estava ganho o dia à conta dos morcões, pai e filho….. Durante o resto da nossa estadia foi motivo de sadia brincadeira….
Piscina



E ía muito bem com os queijos o presunto e as morcelas honradas pela companhia das bicas, uma espécie de pão de azeite quase sem miolo, saborosíssimo…. E vinho “pedra d’urso”….
E disto se fez uma “estória” porque de verdade feita. E tão verdadinha é, que ainda sinto os sabores e sou capaz de rir dos morcões….

                             António Capucha
     
              Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2011




Entremos com o pé direito na peroração deste ano. Este ou outros fetiches pouca diferença farão da mais que esperada, evolução negativa da nossa dimensão colectiva. Não alimento ilusões nesta matéria.
A primeira coisa a contribuir para a minha desilusão, será a mais que esperada reeleição de Cavaco Silva. Que não é um acto isolado, só por si…. Significa também que os outros candidatos paridos pelo sistema, não têm a suficiente distância das jogadas sujas e subterrâneas que lhes permita desmascarar o seu, dele C. Silva, jogo sórdido de servidor da causa pública….
É que ele não é só inábil…. É notoriamente incompetente (politicamente entenda-se) e do ponto de vista filosófico, será que o tem???? É um fervoroso adepto de que a politica é uma treta e a solução é sempre técnica e gestionária e aceita e defende o primado da lei concorrencial dos mercados sobre a autoridade do Estado. (o seu primeiro acto após a sua eleição para primeiro Ministro nos anos oitenta, foi a restauração e reabertura da Bolsa de Lisboa, que segundo ele, é condição indispensável para o funcionamento de qualquer economia livre) Pois agora se vê!!!!
Vai muito tempo que esta figura está portas meias do poder e o mais das vezes, ocupa sempre o centro desse mesmo poder. Que é a única situação que o seu descomunal ego aceita. O pior é que, como é habitual nestas coisas, os outros aspectos pessoais, não acompanham essa mesma dimensão. E é isso que faz dele um equívoco politico, e uma má solução para o país, como aliás se tem visto. Mesmo visto à lupa não se vê nada que tenha sido mérito seu, e um bem inequívoco para o País… Bem pelo contrário….
Depois e não desligado deste primeiro aspecto, o FMI, perfila-se no horizonte. Trata-se de uma entidade sisudíssima, bem ao gosto Nacional, e que aparecerá como um D. Sebastião, menos maricas, mas igualmente salvador das pobres almas Portuguesas, em conflito histórico entre o Capitalismo selvagem e o colectivismo compulsivo…. Esta mania de termos um Estado social e ao mesmo tempo utilizá-lo como se fosse uma entidade dotada de vida própria, e gastar os seus recursos à “tripa-forra” como se não fossem nossos e finitos….. Basta ver o que fazem todas as oposições…. Propõem sempre soluções que aumentam sempre as despesas do Estado, e depois dizem querer menos Estado, e até inventam combinações e trocadilhos: Menos Estado…. Melhor Estado…. Pois …. Palavras!!!!  E isto não é de agora quando a composição era a inversa, a coisa era a mesma….
No plano pessoal isto só pode correr melhor…. Sou um inveterado optimista. Fico mais velho, mais trôpego, mas sinto-me cada vez mais esperto…. Mais capaz…. Sinto que muito embora a culpa seja evidentemente de pessoas e que essas pessoas têm nome e são muitas, e eu e meia dúzia de outros: irremediável minoria, não damos para as encomendas e por vezes até nos enganamos…. Mas, como dizia, acredito numa espécie de humanidade cósmica, que pela lógica das coisas acabará por ter que ser aceite, contra alternativa nenhuma, mais lá para as “calendas”. As religiões de um modo geral também pensam coisas semelhantes em relação ao nosso destino cósmico, assumindo aspectos mais ou menos romanescos, mas o que também se prova é que não será o Marxismo o fim desta saga. Sabem o que é que eu penso : É que o que for soará…. Cá estaremos uns como eu e muitos como os outros e logo se vê como irá ser. Uma certeza tenho porém: É que quantos menos Cavacos Silvas e FMIs essa sociedade produzir, mais perto ficamos da solução….


                         António Capucha

         Vila Franca de Xira, Janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Atrasado.... Mas Natal, é quando um homem quiser, ou não é?






Mariani ao seu melhor nível. Aquele pôr de mãos, revela toda a sisudez.... Sim senhor.... Valeu a pena esperar por esta postura. Desde o Almirante, não o bardamerdas... O outro o dos canários... Aliás dos periquitos.... que não se via pose tão distinta e mensagem que tanto me tocasse! Fica a faltar uma criancinha loira, para ser igualzinha à Sagrada Família....
                 António Capucha
 Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010
      

Parto com dor

Parto

Num dia qualquer de um sombrio Outubro por volta das três da manhã, lá fora chovia que Deus a dava. E raios e coriscos fendiam o céu que se sabia estar por trás das grossas nuvens…. Uma “noite de cão”!!!!
Meio-deitada na enxerga uma mulher espremia-se toda para expulsar um bebé que faz nove meses trazia no ventre. A mulher tinha um ar bojudo de parideira veterana, mas a coisa não estava fácil…. Aliás, a coisa nunca é fácil….
Junto dela a D. Júlia, parteira que já amparara mais de duzentas crianças na sua luta desigual para virem ao Mundo. Na sua voz autorizada disse… Melhor, comandava: Vá querida … É só mais um bocadinho….. Agora, força…. E a voz acompanhava o esforço que pedia à parturiente….
Aquela espécie de inteligência cósmica a que chamamos instinto, força-nos a desencadear o nascimento e a abandonar a modorra do útero materno, quente e acolhedor, desconhecendo o desconforto ou a fome, para nos lançarmos num aperto hercúleo da “mater-vagina”, para o choque térmico do exterior…. Um arrepio percorre-nos a espinha ainda frágil. E sentimos algo desolador, violento, a queimar-nos os incipientes pulmões. Uma golfada de ar e um choro de morte. E aquele tan-tan… tan-tan….tan-tan, onde está? O que é isto? Estão-me a agarrar…. Que coisa dura é esta que me passam pelo lombo? Só lhe apetece gritar…. E grita! Grita como se o estivessem a matar.
A “prática” pega-lhe e coloca-o sobre o peito da mãe e ele sossega….. Áh…. Cá está o ”tan-tan” outra vez…. Estava a ver?!?! Ai que bom….
Não….. Não me tirem daqui!!! A mãe virou-o ligeiramente e tenta que ele mame. Mete-lhe o bico da teta na boca e aguarda que o tal instinto o faça chupar o colostro… O pobre besnico faz pela vida, confere a mãe, não sem algum alívio….. É todo normalinho….. Benza-o Deus!!!! Amanhã vigiar-lhe-á as fraldas a ver se as digestões são normais.
Adormeceu e a mãe vigia-lhe a respiração, e por fim ela própria cede à fadiga e fecha os olhos…. A D. Júlia, corre com todos do quarto e sai apagando a luz do tecto. Fica acesa apenas uma lâmpada de mesa-de-cabeceira, sobre cujo “abat-jour” repousa uma fralda branca que adoça ainda mais a luz do candeeiro. A esgotada senhora entreabre os olhos e sem se mexer contempla o menino… Ainda não sei a cor dos seus olhos, sussurra. Volta a vencer a estafa do Parto e adormece por fim e desta vez até de manhã.
Gloriosa manhã após a borrasca do dia anterior. O Sol invade o quarto, a mãe acorda e breves minutos depois o bebé vai tentando abrir os olhos feridos pela luminosidade circundante. Por fim, fica com eles abertos e aparentemente habituado à luz, contemplam-se mutuamente como que hipnotizados, dura uma eternidade esta co-identificação, ele fecha os olhos e boceja, posto o que lhe devolve o olhar, como quem diz: então és tu que eu conheço de te ouvir em ondas de ressonância amniótica…. E ela infere ser ele o carrasco que lhe fincava os pés nas costelas e empurrava…. Já tal não lhe parece, ali tão sereno, tão lindo o seu menino é o terceiro e tão parecido com os outros: O mesmo cabelo farto (dizem que provoca vómitos à mãe…. Âhhh… crendices!) e preto, a mesma pele morena, os olhos é que, e olha com mais atenção, é que são diferentes …. São assim de um verde escuro, verde garrafa…. De pupilas enormes e a reagirem bem às variações de intensidade luminosa.  E o mais extraordinário de tudo isto são as coisas que ela lhe diz. Como este prodígio criativo de mãe: - Só me apetece comer-te com beijos….. Lindo!!! E outras…. Sabem do que é que eu estou a falar, não sabem?
Também gostava de saber dizer assim coisas desta força, mas o que é que querem!!!! Cá vou alinhavando estas patacoadas e é um pau....

                            António Capucha

            Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010    

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Trivialidades

Triviais Silvas

Mesmo sem ver, sei que o Tejo continua a correr ora para jusante, ora para montante. Também posso adivinhar que o tempo estará ventoso, nublado, ou soalheiro, ou chuvoso, ou que neva, ou faz frio, ou quente, ou um nevoeiro de cortar à faca, ou nem por isso e faço-o sem receio de errar mais do que a conta. E posso faze-lo em qualquer parte do Mundo sem errar…. E porquê? Porque considerei todas as hipóteses. Isso é aqui entre quatro paredes…. Mal comparado é assim como dantes eram as previsões meteorológicas d’antanho do tempo do Antímio. Como não podiam contar com a panóplia de ferramentas que hoje existem a pontapé, tinham que somar à sua sabedoria a artimanha de considerar mais do que, pelo menos uma hipótese, para não serem acusados de enganar o povinho…..  Áh e tal…. Há condições para a formação de nevoeiro pela manhã, no entanto para a tarde é esperada uma subida de temperatura significativa, de modo que, e porque o seguro morreu de velho, não deixe em casa os agasalhos e traga sempre consigo o guarda-chuva….
Pois é…. Eu podia estar para aqui a aduzir trivialidades atrás de trivialidades até amanhã de manhã que não me faltaria matéria, nem concorrência (?!?!?!), com esta fórmula infalível, de discorrer sobre seja o que for.
0 “blogue”reclama novidades, ou simplesmente coisas novas, e eu, que remédio tenho que não seja dar o litro. Agora sabendo eu que há autênticos profissionais da trivialidade, mesmo trivial, vazios de conteúdos, e são tidos como responsáveis e sisudas criaturas…. Será que essa gente está sempre em sequela pós Natal?
Ou serão somente desonestos?.... Ou estúpidos? Ou ambas as coisas??? É melhor jogar numa tripla como os meteorologistas….
Sinto-me de certo modo injustiçado.
Eu para aqui a cumprir com o estabelecido entre mim e eu próprio, descendo até à banalidade, para cumprir as minhas supostas obrigações…. E eles, os Silvas todos deste Mundo, que assentaram toda a sua vida nas vulgaridades que brotam das suas fossas bocais…. Como se flores de retórica  se tratassem, ou profundos pensamentos filosóficos…. Qual quê?!?! Lixo!!!! Lixo é que é.
E enquanto não se desvanecerem os aromas do Natal, contem comigo para engrossar este turba de velhacos a vender gato por lebre.
Desculpem lá…. Tal como as bebedeiras, isto também me há-de passar!!!!
                   
                                

                                António Capucha
              Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal



 Vou entrar em estágio, para ver se dá para comer umas filhószinhas.... 
Um bom natal a todos e um ano novo feliz…. já que mais pobre parece que vai ser….. 
Vá até ao "post "Natal negro". Um pouco mais atrás.
E curta um Natal diferente....  

"Nela"

Mistelas Diversas

 Cruzou a perna com elegância, num movimento preciso e exacto sem abandonar rigorosamente nada do que estava nesse momento a fazer, nem um entrecorte na conversa, um gesto interrompido…. Nada… Dir-se-ia que a “Nela”, nunca tinha feito outra coisa que não fosse estar no café a debitar charme. De resto, é bom que se diga, que essa não seria uma afirmação descabida.
É assim…. Umas nasceram para se amarrar a um “mastronço”, enche-lo de migas e a si própria, de filhos. E outras nem por isso….. Desperdiçar nestas predações um corpinho, que grita todo ele : Olha-me, admira-me, mede-me toda a paus de fósforo….. E um palminho de cara!?!? Que nem vos conto. Uma Deusa grega….  A expressão pictórica mais acabada do genoma humano…. Propositadamente nascida para ser admirada, mirada e remirada. Devia estar exposta num Museu. E de certa forma estava-o….. Onde quer que pousasse a sua sombra, transformava-se em Obra prima e o local: em museu…. Dizer que atraía as luzes sobre si, não é de forma nenhuma afirmação gratuita a carecer de prova. A sua vida parecia ser um deslizar constante movido a inércia do plasma das coisas vivas…..
Mas tal como tudo tem os seus quês…. Estava-lhe vedado apaixonar-se. Ter um homem só seu. Condenada a ser um ícone sagrado de beleza, assim como um Norte, para a fealdade média… E também não pode ser tida ou havida por alguém. Nem envelhecer serenamente, ou mesmo em conflito existencial. Como Tântalo, com toda aquela água aparentemente a sua mercê, não pode saciar a sede porque ela recua na exacta medida que ele se lhe chega. Também ela, tem aparentemente todos os atributos para trocar os olhos ao mais pintado, no entanto ela sabe, que se ceder à paixão, ao sentimento um raio baixará do céu à terra e fulminá-la-á, deixando-a velha e feia com a sua provecta idade de sessenta anos, lavrada de rugas, pneus e pés de galinha, as mamas badalando num ventre “michelam”, bimbas descaídas e braços frouxos….
Maldita bruxa!!!! Dizia desesperada quando sozinha na cama nem podia deixar que o fogo do sexo a devorasse….  Aliás o sexo era cada vez mais apenas um adereço visual e menos uma ferramenta de felicidade, ou de procriação.
A Avon; L’Oreal; a Vichy; a Pond’s; a Nívea e outras “misteleiras”, reuniram-se em sindicato, para promoverem uma embaixadora do ideal de beleza feminina. Desde há muito que fizeram com a “Nela” um contrato onde plasmado estava que ela, a “Nela”, tem direito a assistência perene, na condição de, por vontade própria, nada fazer para empalidecer a sua estonteante beleza.
De modo que remédio teve ela senão aprender a gozar o seu quinhão de vantagem (a sua beleza) , e aprender a viver sem as emoções das mulheres normais…
Tinha especial apreço pelo gozo que lhe dava a inveja que desencadeava nas feiosas e fatelas invejosas…. Elas bem disfarçavam exibindo os seus “bacoritos sem pescoço” “Querubins sem pila” de caracóis louros, que bem rapidamente cediam à frustração em frente do espelho:
- Ai credo, que “pandeiro” e o pneu?!?! Parece pneu de tractor…. As carnes dia a dia mais descaídas em pregas e mais pregas que só acabam nas unhas dos pés….E ela ali viçosa, parece que veio ontem da viagem de finalistas….. Como é que ela faz isso. Tem que ser bruxedo….. E essa ideia começa a tomar forma…. Engrossava o número de mulheres que aplacava a sua raiva, com a ideia de que a beleza dela era fruto de bruxaria…..
O Padre da paróquia, na dúvida também ajudava à festa, que sim senhor…. Não parece obra do bom  Deus…. E a coisa cresce vai tomando forma…. Já vai no Bispo…. Até que o patriarcado acaba por ter que tomar posição. Que sim senhor… Tudo indica que…. E reconstituindo velhos métodos nomeiam um Inquiridor, para instruir um processo canónico. E se for caso disso então Pimba!!! Tal como nos bons velhos tempos, enfiavam-lhe um “Sanbenito” pela cabeça, untavam-na com pez, e faziam uma fogueira no terreiro da Igreja, e aquilo  seria, como quem arde um “madeiro”.
O resto já se sabe como é: julgamento sumário, não houve dificuldade em arranjar quem testemunhasse a sua relação de dependência do demo. E foi “relaxada ao braço secular”
Na data aprazada de manhã bem cedo, grande azáfama do povoléu no Terreiro da Igreja Matriz a arrebanhar e juntar lenha e a firmar um poste onde arderia a beleza que tanto os incomodava. E pelas três da tarde, como estava previsto, o comércio nem abriu para que todos pudessem assistir a mais uma vitória sobre o Satã…
A “Nela” bela e luminosa como sempre, rezava baixinho a sua triste sina e a infausta procissão arranca do Templo e deu umas voltas até ao Chafariz da “Fonte Nova” e deteve-se junto à pilha de lenha. Obrigaram-na a subir e o Inquisidor Mor, leu o libelo acusatório e ia dar ordem para atear a lenha quando irrompem pelo recinto várias mulheres de batas brancas e com bordados por cima do peito esquerdo com o logótipo da “Avon” da “Nívea” etc…etc… E gritaram: ALTO E APAGA O FÓSFORO……
O pessoal ficou mudo e quedo…. Então uma disse em voz clara, o que estão a fazer a esta mulher é injusto. Ela não é vítima de bruxaria, ela apenas usa por contrato os nossos produtos…. Por ser verdade afirmamos aqui que a Nela, usa os nossos produtos de beleza desde muito nova. E é por isso e não por ter feito pacto com o diabo que tem a eterna juventude….. O mulherio começa a murmurar entre si e as promotoras de beleza fizeram o negócio da vida delas. Venderam tudo o que traziam e ainda ficaram em falta os “boyons” de Baba de Caracol, que terão fugido à tratadora. E então disseram alto e bom som à condenada, que a libertavam do contrato que tinham assinado. As mulheres todas à uma entre gritos e vivas à Avon Pond’s e tudo o mais, soltaram a Nela, e puseram lá o Inquisidor Mor. Que berrava que nem um chibo, que estavam todas excomungadas, mas não se livrou de virar churrasco por entre vivas da populaça.
Esta e não outra é a verdadeira razão das mulheres desta terra serem todas muito belas, e “salerosas”….
Quanto à nela, acabou por casar com um bom homem de quem teve três “bacoritos sem pescoço” e ainda hoje, que já lá vão muitos anos desde estes extraordinários acontecimentos, ainda se notam os traços da mulher muito bela que foi, aliás, é…..  E diz-se que são muito felizes e até já tem um netinho que se chama Gaspar…. Filho da sua filha, que seu neto é….             


                               António Capucha

             Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Estórias da Graça: umas com, outras sem…

Igreja e ex  Convento de Nossa Srª da Graça

Aposto que nenhum de vós, caras e caros leitores e amigos, gente fina e culta que sois, sabeis falar em língua Mexicanista!!! Haverá um ou dois que arranha o Amaricano ou o Inglesito, Mas nunca ambas. Que se pode dizer então de uma personagem, um malabarista linguista, que domina as três, e disso fez prova em devido tempo.
Passou-se isto, que abismado vivi, no mesmo local da “tropa fandanga” de que anteriormente vos falei. O famoso Depósito de Indisponiveis… Cada vez que estava de serviço, era como se tivesse a biblioteca de Alexandria, escancarada e inteiramente à minha disposição. Ora como anteriormente já referi, a maioria do tropa era constituída por evacuados da zona de guerra, os “caras sarapintadas” com milhentos pontos escuros, efeito provavelmente do TNT das minas e outros mimos. Isto porque não era só o rosto marcado, eram também as outras mazelas… Alguns deles tinham capacidade para fazer serviços por escala. Nomeadamente Oficiais de dia. Indivíduos comuns alguns, outros completamente “cacimbados”e com baixa à “neuro psiquiatria”. No entanto julgados como bons para serviços de escala.  
Num belo dia em que fiquei de serviço, o oficial de dia disse-me Óh Furriel, você é novo cá, não é?. Passados poucos minutos já não havia segredos acerca do percurso militar de ambos… Então e em jeito de despedida diz: É pá a malta aqui depois do “toque d'ordem” fecha o portão e é costume deixar sair os presos…. Bom…. Isto em Roma, sê romano….. E chegada a hora lá desci às catacumbas do antigo Convento da Graça, e, tocam-me dois “pontas esquerdas” de respeito. Ia à espera de encontrar meliantes do pior e dou de caras com dois pobres diabos com um ar sumido um e o outro com ar de vendedor de mulas… O vendedor de mulas coxeava porque tinha dado um tiro no próprio pé para escapar à tropa. E eu pensei : Que raio de cromo é que dá um tiro no próprio pé para não ir à tropa ?  Ó meu furriel. É que tenho dois filhos e a mulher não trabalha e eu tentei não é! Tinha assim uma voz de bagaço e uma tosse de bronquite perpétua….
O outro era uma personagem sumida como disse, de cabeça enfiada entre os ombros e era então esse, o tradutor de inglesito, amaricano e Mexicanista, foi breve a conversa e o tempo que levei a realizar e envergonhar-me da justiça militar do exercito do Império…. Que vergonha o tipo era tão infantil, tão bate mal, que nem terá entendido nunca, que foi condenado a dois anos de cadeia por se ter ausentado do serviço militar por dois anos, que andou a monte e fugido à PM.  Bom ele disse-me isto e outras coisas, várias Coisas, ora em “inglesito” ora em “mexicanista” e ficamos assim.
Disse-lhe das condições para os soltar e à hora a que os queria de volta e executamos os preceitos da unidade.
O dia não acabaria assim. É preciso dizer-se que naquela albergaria de doidos pernoitava mais uma “criatura de Deus”, que era uma cachopita aí dos seus dezassete dezoito anos, esguia e pequena, de sorriso gaiato e uns olhos azuis, aquáticos numa carita magra e tão suja como bonita.
Ora pareceu-me, e bem,  que era uma “habitué”, uma confrade para o jantar, que pagaria em géneros, digamos assim, o ficar com o estômago mais aconchegado, que dali levava pela manhã. Dormia normalmente na carpintaria e o mal amanhado do carpinteiro, estava tão apaixonado que suportava a verdadeira enxurrada venérea que do seu amor brotava. Coisas…. E como era de bom coração partilhava-a a troco de uns cigarritos, ou com quem lhe pagasse uma cerveja ou algo semelhante.
Ainda hoje estou para saber como, mas esta Deusa, conseguiu surripiar não sei onde a chave do meu quarto e já bem para lá da Meia-noite, quando meto a chave à porta para ir dormir na cama que tinha mandado fazer de lavado, acendo a luz e surpresa… A ninfa, esperguiçava-se e dizia ‘tás Fodi…. , agora tens que dormir comigo…. Olhei para ela e disse : Ai tenho???? Sem brusquidão, peguei-he no braço magro e sem a forçar demasiado levei-a para a prisão. Ela quando percebeu o destino que a esperava, tentou soltar-se, sentou-se no chão a espernear que não, que o gajo mais velho é maluco, é um tarado que nunca mais para….. E eu disse-lhe: Vá anda lá que eu depois dou-te uma prenda bonita. Parou de espernear e virou para mim os olhos, do mais doce que os pôde fazer. ‘Tá bem mas se me ouvires gritar. Vens cá buscar-me. Fica descansada, disse. Virei costas e fui dormir. Não dormi grande coisa, a conversa bem regada e “sobrefumada” com o Oficial de dia ainda me batia nas paredes do cérebro.
Era um Capitão de uma Companhia do mato na Guiné, e contou-me de como se fica “xarope”  de todo naquela merda…. Os gajos até nos chamavam pelos nomes. Todo o Santo dia era morteirada que até fervia. Não aguentei fui perdendo malta, que ao fim de várias semanas nisto, não aguentavam e saiam dos abrigos…. Passei-me um dia saltei também para a parada a gritar: Éh cabrões, ‘tou aqui, vá fodan… lá caralh….  E não levei uma saraivada de tiros porque eles não quiseram… Sei lá!!! Então o comando da região mandou-me evacuar e cá estou pá…. Bebeu mais um gole de uísque.  Ali na minha cama o pensamento levemente toldado pela bebida, saltava destas revelações extraordinárias, ao que chagam as pessoas sobre pressão….. Para a coitadinha da cachopa nas mãos daqueles dois esfomeados lanzudos…. Bem eu avisei aquele marado do Jorge ( o do tiro no pé) Se fazes mal à miúda ‘tás feito comigo….
Acordei bem cedo. Molhei a cara e saí  o meu primeiro pensamento foi ir à prisão. Também que raio de ideia que se me havia de meter na cabeça. Cheguei e verifico que aparentemente está tudo bem.  Abri-lhe a porta e ela saiu a correr para a rua que já eram horas. Falei com o Jorge . Então….. Porreiro Furriel…. E o mexicanista, pergunto. Não fez nada Furriel. A miúda foi deitar-se ao pé dele e ele punha-se a chorar. E encarquilhava-se todo. E eu pensei. Perigoso marginal prevaricador…. Só preso….. Santo Deus…. E tu? Âh óh Furriel, “atão” “Pimba”!!!!
Quando sai de serviço fui à rua comprei umas “meias de vidro” e uma colónia.
E estudei um discurso para quando lhos entregasse. Mas desisti. Tê-la como coitada, era uma profissão de fé da minha superioridade em relação a ela, descabida, estúpida, desnecessária. Devia ser o que estava a fazer-lhe mais falta!!
Vou dar-lhe aquilo simplesmente sem mais ró-có-cós, é mais decente, que remédio tenho eu se não  aceitar que ela é aquilo que escolheu ser. Se me causa engulhos .... Problema meu,  ponto.

     

                       António Capucha

      Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010