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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O “ramelas”

Naifa de pont'e mola

O “ramelas” era um gajo de facas. Toda a gente lá do bairro contava até muitos antes de se meter com ele. A figura dizia quase tudo o que havia para dizer dele. Um fuinha encartado. Magro como um cão sarnoso. Pernas finíssimas e arqueadas sapatinho bicudo de matar barata ao canto da sala. De andar bamboleante de um lado para o outro, marcado pelo toque-toque do tacão à espanhola. No cimo da cabeça uns cabelos loiros, escorridos e sebosos assomavam parcos do chapéu de feltro castanho. O rosto era magro de rótulas encovadas, escuras, maçãs do rosto salientes. Caracterizando a palidez, um bigodinho ridículo e uma pêra talhada à Iago. Tudo nele inspirava velhacaria e ausência de valores. A sua “baubina” era uma navalha de “pont’e mola” que rebolava entre os dedos no interior do bolso do “Kispo”. A sua vozinha, várias oitavas acima do que é normal num homem quando contava uma graçola, ria numa careta e estridência histérica. A sua “baubina”, demasiado opiniosa amiúde saía do bolso de lãmina exposta para um corte punitivo que o mau do “ramelas” infringia por sadismo a quem quer que fosse, Muita gente, lá na rua, apresentava cicatrizes ou uma camisa às tiras, fruto dos volteios da “baubina”. Mas sempre assim pela surra, em guerras não declaradas e brincadeiras d’homem, que como se sabe são como os beijos de burro. Se a coisa fosse a sério ninguém via o “ramelas”. Desaparecia por detrás do cenário, fazendo uma aparição em jeitos e gestos “jedais”, apenas quando tudo já estava serenado. Cobardolas, portanto!!!! É o que há a juntar á colecção de cognomes do “ramelas”…
Um belo dia um outro fanfarrão lá do bairro estava à mesa da Tasca do Galo a beberricar um fino e na sua frente o “ramelas” brincava com a “baubina” espalmando a mão no tampo da mesa e picando no intervalo dos dedos cada vez mais depressa. O mocetão de voz grave e sonora, diz: Óh “ramelas” essa merda está-me a enervar… Ainda um dia te enfio a “baubina” pelo olho do cu acima..... Malandro…. Riposta o interpelado… Como um raio o mocetão dispara uma palmada na mão do “ramelas” e a “naifa” deu umas quantas voltas no ar. Acto contínuo deitou o faquir em cima da mesa e puxa-lhe as calças para baixo. O “ramelas” chorava baba e ranho de todo o tamanho enquanto berrava : Não…. Não…. Não
Objecto da risota geral a coisa só parou depois de estar assegurada uma boa dose de Justa humilhação, que não deixou ao “ramelas” outra coisa, senão mudar de esquina….


                               António Capucha

              Vila Franca de Xira, Setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Medronho

The Tasmaniac - 'Medronho Moonshine' Official Video

Os amigos Algarvios, Afonso Dias e companhia, fizeram-me chegar isto..... Um espanto!!!!

Vai um "madronhite"?
Mandou o Manel.
Divirtam-se.
afonso

 Uma banda Irlandesa que dá valor ao que é português ( Aguardente de Medronho ) lindooo...!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CASTING
O Teatro Municipal de Almada realiza um casting nos dias 19 e 20 de Setembro para seleccionar actores para a reposição do espectáculo “Santa Joana dos Matadouros”, de Bertolt Brecht, com encenação de Bernard Sobel, que estará em cena entre os dias 2 e 20 de Novembro na Sala Principal do TMA.
O período de ensaios é entre 1 e 31 de Outubro.
Os interessados (pretende-se actores entre os 20 e os 25 anos) deverão enviar os seus curriculos para o email geral@ctalmada.pt.
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domingo, 4 de setembro de 2011

Guerra é guerra

galos de luta

Três pedras no bolso. Um arco de flechas em cana da Índia aparelhada com fio de côco, comprada ali na venda do….. Varreu-se-me! As flechas eram P´raí umas dez por cada guerreiro, pacientemente feitas em caninha muito fina e verde com os nós bem limados e uma pena de peru ou pato atrás e presa numa ranhura sobre o comprido com um atilho em guita, que solidificava a haste para que não ficasse presa no fio de côco quando o arco era retesado. Bom…… Aquilo era uma arma bem perigosa, letal até, se as flechas tivessem na ponta uma farpa em ferro. Felizmente os conhecimentos e domínio da tecnologia não deram para tanto.
Ambos os exércitos tinham o seu castelo, armado no que desse jeito e por ali aparecesse. Todo este cenário e os demais adereços levaram bem, uns dois dias a arrebanhar e instalar no quintal, zona do pomar, da avó Rita. Os exércitos também eram bizarros. Tinham ambos um elemento apenas, que para além de Soldado, era General, Porta voz e emissário, Parlamentar para lá de tudo o que viesse a revelar-se util.
Eu e o meu primo Zé Tó, éramos os titulares destas forças militares. “Maráus” de estalo, não durou muito que estoirasse bronca da grossa. E não foi a guerra que a despoletou… Não! Foi exactamente um tratado de paz. Cansados de trocar pedradas e depois de várias salvas de flechadas, a que se seguiam lutas de espadas de pau de vassoura, intermináveis e infrutíferas, pois nem um nem outro dava sinais de rendição. Enviaram os parlamentares e estes entenderam-se numa paz duradoira…. Estavam eles a parlamentar quando uma galinha saltou para cima de um dos castelos. O parlamentar respectivo acusa a invasão e armando o arco desfere um tiro que vira o boneco ao galinácio. Correram para o inimigo comum e lá estava ela a espernear do outro lado do tronco que fazia de muralha, com a flecha espetada e bem espetada. Aquilo sim…. Aquilo é que era guerra…. Até o Sol fechar o cenário, voltou-se à guerra. Perus, patos, galos, galinhas e pavões andou tudo num badanal. Ele era calhoada e flechada de meia –noite, o mais natural é que mais dois ou três daqueles emplumados inimigos, tivesse levado o  correctivo merecido e apresentassem efeitos colaterais da refrega.
Quando a criadita recolheu a criação, deu por falta da poedeira e constatou o estranho coxear dalguns deles. Daí à avó Rita ficar a saber da coisa e descer ao quintal para ver com os seus olhos a devastação. E dessa observação à conclusão de quem teria sido o autor ou autores da coisa, foi um ápice… Resultado: Os exércitos foram presos à mesa da cozinha com uma linha de coser. Ainda tentamos argumentar que aquilo era a guerra e tal…… Mas aquilo era gente que não entendia nada de tácticas de guerras e assim…
Enquanto o conclave decidia o que fazer aos infaustos detidos… Estes sabedores de que partir a linha era a morte certa, ficaram mudos e quedos e embora não recorde muito bem, estou em condições de assegurar que cumpriram galhardamente os castigos, que não hão-de ter sido assim tão duros, porque nem na memória ficaram.                                        


                                      António Capucha
                      Vila Franca de Xira, Setembro de 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

Pau de arara

Pau de arara


Pau de arara é uma vara onde se levam as araras apanhadas no mato em gaiolas uma em cada extremo da vara.  O passarinheiro no meio dá em doido com o chilreio infernal. Os nordestinos brasileiros que chegam a S. Paulo herdam-lhe o nome. Chegam constantemente, numas camionetes de carga ronceiras, com um toldo, debaixo do qual as pessoas vêm literalmente ao monte e ao acaso dias e noites a fio. Este meio é usado para o transporte ilegal de trabalhadores, por associação tomou também o nome de: Pau de arara, em razão da algazarra que os passageiros fazem. Outra das suas evidências é a promiscuidade e desasseio em que decorre a viagem.
O caso relata uma peripécia ocorrida num desses transportes, lá p’ró fim da terceira noite, no meio do ronk-ronk da suspensão, do motor do veículo e dos mil e um ruídos que a caranguejola produzia, ouve-se uma vozinha feminina Que pergunta ao marido:
- Severino? Tu tá em mim???
Ué, responde o interpelado….. Tou não!!!
Então! Estão!!!!  

                        António Capucha


       Vila franca de Xira, Setembro de 2011