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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Atrasado.... Mas Natal, é quando um homem quiser, ou não é?






Mariani ao seu melhor nível. Aquele pôr de mãos, revela toda a sisudez.... Sim senhor.... Valeu a pena esperar por esta postura. Desde o Almirante, não o bardamerdas... O outro o dos canários... Aliás dos periquitos.... que não se via pose tão distinta e mensagem que tanto me tocasse! Fica a faltar uma criancinha loira, para ser igualzinha à Sagrada Família....
                 António Capucha
 Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010
      

Parto com dor

Parto

Num dia qualquer de um sombrio Outubro por volta das três da manhã, lá fora chovia que Deus a dava. E raios e coriscos fendiam o céu que se sabia estar por trás das grossas nuvens…. Uma “noite de cão”!!!!
Meio-deitada na enxerga uma mulher espremia-se toda para expulsar um bebé que faz nove meses trazia no ventre. A mulher tinha um ar bojudo de parideira veterana, mas a coisa não estava fácil…. Aliás, a coisa nunca é fácil….
Junto dela a D. Júlia, parteira que já amparara mais de duzentas crianças na sua luta desigual para virem ao Mundo. Na sua voz autorizada disse… Melhor, comandava: Vá querida … É só mais um bocadinho….. Agora, força…. E a voz acompanhava o esforço que pedia à parturiente….
Aquela espécie de inteligência cósmica a que chamamos instinto, força-nos a desencadear o nascimento e a abandonar a modorra do útero materno, quente e acolhedor, desconhecendo o desconforto ou a fome, para nos lançarmos num aperto hercúleo da “mater-vagina”, para o choque térmico do exterior…. Um arrepio percorre-nos a espinha ainda frágil. E sentimos algo desolador, violento, a queimar-nos os incipientes pulmões. Uma golfada de ar e um choro de morte. E aquele tan-tan… tan-tan….tan-tan, onde está? O que é isto? Estão-me a agarrar…. Que coisa dura é esta que me passam pelo lombo? Só lhe apetece gritar…. E grita! Grita como se o estivessem a matar.
A “prática” pega-lhe e coloca-o sobre o peito da mãe e ele sossega….. Áh…. Cá está o ”tan-tan” outra vez…. Estava a ver?!?! Ai que bom….
Não….. Não me tirem daqui!!! A mãe virou-o ligeiramente e tenta que ele mame. Mete-lhe o bico da teta na boca e aguarda que o tal instinto o faça chupar o colostro… O pobre besnico faz pela vida, confere a mãe, não sem algum alívio….. É todo normalinho….. Benza-o Deus!!!! Amanhã vigiar-lhe-á as fraldas a ver se as digestões são normais.
Adormeceu e a mãe vigia-lhe a respiração, e por fim ela própria cede à fadiga e fecha os olhos…. A D. Júlia, corre com todos do quarto e sai apagando a luz do tecto. Fica acesa apenas uma lâmpada de mesa-de-cabeceira, sobre cujo “abat-jour” repousa uma fralda branca que adoça ainda mais a luz do candeeiro. A esgotada senhora entreabre os olhos e sem se mexer contempla o menino… Ainda não sei a cor dos seus olhos, sussurra. Volta a vencer a estafa do Parto e adormece por fim e desta vez até de manhã.
Gloriosa manhã após a borrasca do dia anterior. O Sol invade o quarto, a mãe acorda e breves minutos depois o bebé vai tentando abrir os olhos feridos pela luminosidade circundante. Por fim, fica com eles abertos e aparentemente habituado à luz, contemplam-se mutuamente como que hipnotizados, dura uma eternidade esta co-identificação, ele fecha os olhos e boceja, posto o que lhe devolve o olhar, como quem diz: então és tu que eu conheço de te ouvir em ondas de ressonância amniótica…. E ela infere ser ele o carrasco que lhe fincava os pés nas costelas e empurrava…. Já tal não lhe parece, ali tão sereno, tão lindo o seu menino é o terceiro e tão parecido com os outros: O mesmo cabelo farto (dizem que provoca vómitos à mãe…. Âhhh… crendices!) e preto, a mesma pele morena, os olhos é que, e olha com mais atenção, é que são diferentes …. São assim de um verde escuro, verde garrafa…. De pupilas enormes e a reagirem bem às variações de intensidade luminosa.  E o mais extraordinário de tudo isto são as coisas que ela lhe diz. Como este prodígio criativo de mãe: - Só me apetece comer-te com beijos….. Lindo!!! E outras…. Sabem do que é que eu estou a falar, não sabem?
Também gostava de saber dizer assim coisas desta força, mas o que é que querem!!!! Cá vou alinhavando estas patacoadas e é um pau....

                            António Capucha

            Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010    

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Trivialidades

Triviais Silvas

Mesmo sem ver, sei que o Tejo continua a correr ora para jusante, ora para montante. Também posso adivinhar que o tempo estará ventoso, nublado, ou soalheiro, ou chuvoso, ou que neva, ou faz frio, ou quente, ou um nevoeiro de cortar à faca, ou nem por isso e faço-o sem receio de errar mais do que a conta. E posso faze-lo em qualquer parte do Mundo sem errar…. E porquê? Porque considerei todas as hipóteses. Isso é aqui entre quatro paredes…. Mal comparado é assim como dantes eram as previsões meteorológicas d’antanho do tempo do Antímio. Como não podiam contar com a panóplia de ferramentas que hoje existem a pontapé, tinham que somar à sua sabedoria a artimanha de considerar mais do que, pelo menos uma hipótese, para não serem acusados de enganar o povinho…..  Áh e tal…. Há condições para a formação de nevoeiro pela manhã, no entanto para a tarde é esperada uma subida de temperatura significativa, de modo que, e porque o seguro morreu de velho, não deixe em casa os agasalhos e traga sempre consigo o guarda-chuva….
Pois é…. Eu podia estar para aqui a aduzir trivialidades atrás de trivialidades até amanhã de manhã que não me faltaria matéria, nem concorrência (?!?!?!), com esta fórmula infalível, de discorrer sobre seja o que for.
0 “blogue”reclama novidades, ou simplesmente coisas novas, e eu, que remédio tenho que não seja dar o litro. Agora sabendo eu que há autênticos profissionais da trivialidade, mesmo trivial, vazios de conteúdos, e são tidos como responsáveis e sisudas criaturas…. Será que essa gente está sempre em sequela pós Natal?
Ou serão somente desonestos?.... Ou estúpidos? Ou ambas as coisas??? É melhor jogar numa tripla como os meteorologistas….
Sinto-me de certo modo injustiçado.
Eu para aqui a cumprir com o estabelecido entre mim e eu próprio, descendo até à banalidade, para cumprir as minhas supostas obrigações…. E eles, os Silvas todos deste Mundo, que assentaram toda a sua vida nas vulgaridades que brotam das suas fossas bocais…. Como se flores de retórica  se tratassem, ou profundos pensamentos filosóficos…. Qual quê?!?! Lixo!!!! Lixo é que é.
E enquanto não se desvanecerem os aromas do Natal, contem comigo para engrossar este turba de velhacos a vender gato por lebre.
Desculpem lá…. Tal como as bebedeiras, isto também me há-de passar!!!!
                   
                                

                                António Capucha
              Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal



 Vou entrar em estágio, para ver se dá para comer umas filhószinhas.... 
Um bom natal a todos e um ano novo feliz…. já que mais pobre parece que vai ser….. 
Vá até ao "post "Natal negro". Um pouco mais atrás.
E curta um Natal diferente....  

"Nela"

Mistelas Diversas

 Cruzou a perna com elegância, num movimento preciso e exacto sem abandonar rigorosamente nada do que estava nesse momento a fazer, nem um entrecorte na conversa, um gesto interrompido…. Nada… Dir-se-ia que a “Nela”, nunca tinha feito outra coisa que não fosse estar no café a debitar charme. De resto, é bom que se diga, que essa não seria uma afirmação descabida.
É assim…. Umas nasceram para se amarrar a um “mastronço”, enche-lo de migas e a si própria, de filhos. E outras nem por isso….. Desperdiçar nestas predações um corpinho, que grita todo ele : Olha-me, admira-me, mede-me toda a paus de fósforo….. E um palminho de cara!?!? Que nem vos conto. Uma Deusa grega….  A expressão pictórica mais acabada do genoma humano…. Propositadamente nascida para ser admirada, mirada e remirada. Devia estar exposta num Museu. E de certa forma estava-o….. Onde quer que pousasse a sua sombra, transformava-se em Obra prima e o local: em museu…. Dizer que atraía as luzes sobre si, não é de forma nenhuma afirmação gratuita a carecer de prova. A sua vida parecia ser um deslizar constante movido a inércia do plasma das coisas vivas…..
Mas tal como tudo tem os seus quês…. Estava-lhe vedado apaixonar-se. Ter um homem só seu. Condenada a ser um ícone sagrado de beleza, assim como um Norte, para a fealdade média… E também não pode ser tida ou havida por alguém. Nem envelhecer serenamente, ou mesmo em conflito existencial. Como Tântalo, com toda aquela água aparentemente a sua mercê, não pode saciar a sede porque ela recua na exacta medida que ele se lhe chega. Também ela, tem aparentemente todos os atributos para trocar os olhos ao mais pintado, no entanto ela sabe, que se ceder à paixão, ao sentimento um raio baixará do céu à terra e fulminá-la-á, deixando-a velha e feia com a sua provecta idade de sessenta anos, lavrada de rugas, pneus e pés de galinha, as mamas badalando num ventre “michelam”, bimbas descaídas e braços frouxos….
Maldita bruxa!!!! Dizia desesperada quando sozinha na cama nem podia deixar que o fogo do sexo a devorasse….  Aliás o sexo era cada vez mais apenas um adereço visual e menos uma ferramenta de felicidade, ou de procriação.
A Avon; L’Oreal; a Vichy; a Pond’s; a Nívea e outras “misteleiras”, reuniram-se em sindicato, para promoverem uma embaixadora do ideal de beleza feminina. Desde há muito que fizeram com a “Nela” um contrato onde plasmado estava que ela, a “Nela”, tem direito a assistência perene, na condição de, por vontade própria, nada fazer para empalidecer a sua estonteante beleza.
De modo que remédio teve ela senão aprender a gozar o seu quinhão de vantagem (a sua beleza) , e aprender a viver sem as emoções das mulheres normais…
Tinha especial apreço pelo gozo que lhe dava a inveja que desencadeava nas feiosas e fatelas invejosas…. Elas bem disfarçavam exibindo os seus “bacoritos sem pescoço” “Querubins sem pila” de caracóis louros, que bem rapidamente cediam à frustração em frente do espelho:
- Ai credo, que “pandeiro” e o pneu?!?! Parece pneu de tractor…. As carnes dia a dia mais descaídas em pregas e mais pregas que só acabam nas unhas dos pés….E ela ali viçosa, parece que veio ontem da viagem de finalistas….. Como é que ela faz isso. Tem que ser bruxedo….. E essa ideia começa a tomar forma…. Engrossava o número de mulheres que aplacava a sua raiva, com a ideia de que a beleza dela era fruto de bruxaria…..
O Padre da paróquia, na dúvida também ajudava à festa, que sim senhor…. Não parece obra do bom  Deus…. E a coisa cresce vai tomando forma…. Já vai no Bispo…. Até que o patriarcado acaba por ter que tomar posição. Que sim senhor… Tudo indica que…. E reconstituindo velhos métodos nomeiam um Inquiridor, para instruir um processo canónico. E se for caso disso então Pimba!!! Tal como nos bons velhos tempos, enfiavam-lhe um “Sanbenito” pela cabeça, untavam-na com pez, e faziam uma fogueira no terreiro da Igreja, e aquilo  seria, como quem arde um “madeiro”.
O resto já se sabe como é: julgamento sumário, não houve dificuldade em arranjar quem testemunhasse a sua relação de dependência do demo. E foi “relaxada ao braço secular”
Na data aprazada de manhã bem cedo, grande azáfama do povoléu no Terreiro da Igreja Matriz a arrebanhar e juntar lenha e a firmar um poste onde arderia a beleza que tanto os incomodava. E pelas três da tarde, como estava previsto, o comércio nem abriu para que todos pudessem assistir a mais uma vitória sobre o Satã…
A “Nela” bela e luminosa como sempre, rezava baixinho a sua triste sina e a infausta procissão arranca do Templo e deu umas voltas até ao Chafariz da “Fonte Nova” e deteve-se junto à pilha de lenha. Obrigaram-na a subir e o Inquisidor Mor, leu o libelo acusatório e ia dar ordem para atear a lenha quando irrompem pelo recinto várias mulheres de batas brancas e com bordados por cima do peito esquerdo com o logótipo da “Avon” da “Nívea” etc…etc… E gritaram: ALTO E APAGA O FÓSFORO……
O pessoal ficou mudo e quedo…. Então uma disse em voz clara, o que estão a fazer a esta mulher é injusto. Ela não é vítima de bruxaria, ela apenas usa por contrato os nossos produtos…. Por ser verdade afirmamos aqui que a Nela, usa os nossos produtos de beleza desde muito nova. E é por isso e não por ter feito pacto com o diabo que tem a eterna juventude….. O mulherio começa a murmurar entre si e as promotoras de beleza fizeram o negócio da vida delas. Venderam tudo o que traziam e ainda ficaram em falta os “boyons” de Baba de Caracol, que terão fugido à tratadora. E então disseram alto e bom som à condenada, que a libertavam do contrato que tinham assinado. As mulheres todas à uma entre gritos e vivas à Avon Pond’s e tudo o mais, soltaram a Nela, e puseram lá o Inquisidor Mor. Que berrava que nem um chibo, que estavam todas excomungadas, mas não se livrou de virar churrasco por entre vivas da populaça.
Esta e não outra é a verdadeira razão das mulheres desta terra serem todas muito belas, e “salerosas”….
Quanto à nela, acabou por casar com um bom homem de quem teve três “bacoritos sem pescoço” e ainda hoje, que já lá vão muitos anos desde estes extraordinários acontecimentos, ainda se notam os traços da mulher muito bela que foi, aliás, é…..  E diz-se que são muito felizes e até já tem um netinho que se chama Gaspar…. Filho da sua filha, que seu neto é….             


                               António Capucha

             Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Estórias da Graça: umas com, outras sem…

Igreja e ex  Convento de Nossa Srª da Graça

Aposto que nenhum de vós, caras e caros leitores e amigos, gente fina e culta que sois, sabeis falar em língua Mexicanista!!! Haverá um ou dois que arranha o Amaricano ou o Inglesito, Mas nunca ambas. Que se pode dizer então de uma personagem, um malabarista linguista, que domina as três, e disso fez prova em devido tempo.
Passou-se isto, que abismado vivi, no mesmo local da “tropa fandanga” de que anteriormente vos falei. O famoso Depósito de Indisponiveis… Cada vez que estava de serviço, era como se tivesse a biblioteca de Alexandria, escancarada e inteiramente à minha disposição. Ora como anteriormente já referi, a maioria do tropa era constituída por evacuados da zona de guerra, os “caras sarapintadas” com milhentos pontos escuros, efeito provavelmente do TNT das minas e outros mimos. Isto porque não era só o rosto marcado, eram também as outras mazelas… Alguns deles tinham capacidade para fazer serviços por escala. Nomeadamente Oficiais de dia. Indivíduos comuns alguns, outros completamente “cacimbados”e com baixa à “neuro psiquiatria”. No entanto julgados como bons para serviços de escala.  
Num belo dia em que fiquei de serviço, o oficial de dia disse-me Óh Furriel, você é novo cá, não é?. Passados poucos minutos já não havia segredos acerca do percurso militar de ambos… Então e em jeito de despedida diz: É pá a malta aqui depois do “toque d'ordem” fecha o portão e é costume deixar sair os presos…. Bom…. Isto em Roma, sê romano….. E chegada a hora lá desci às catacumbas do antigo Convento da Graça, e, tocam-me dois “pontas esquerdas” de respeito. Ia à espera de encontrar meliantes do pior e dou de caras com dois pobres diabos com um ar sumido um e o outro com ar de vendedor de mulas… O vendedor de mulas coxeava porque tinha dado um tiro no próprio pé para escapar à tropa. E eu pensei : Que raio de cromo é que dá um tiro no próprio pé para não ir à tropa ?  Ó meu furriel. É que tenho dois filhos e a mulher não trabalha e eu tentei não é! Tinha assim uma voz de bagaço e uma tosse de bronquite perpétua….
O outro era uma personagem sumida como disse, de cabeça enfiada entre os ombros e era então esse, o tradutor de inglesito, amaricano e Mexicanista, foi breve a conversa e o tempo que levei a realizar e envergonhar-me da justiça militar do exercito do Império…. Que vergonha o tipo era tão infantil, tão bate mal, que nem terá entendido nunca, que foi condenado a dois anos de cadeia por se ter ausentado do serviço militar por dois anos, que andou a monte e fugido à PM.  Bom ele disse-me isto e outras coisas, várias Coisas, ora em “inglesito” ora em “mexicanista” e ficamos assim.
Disse-lhe das condições para os soltar e à hora a que os queria de volta e executamos os preceitos da unidade.
O dia não acabaria assim. É preciso dizer-se que naquela albergaria de doidos pernoitava mais uma “criatura de Deus”, que era uma cachopita aí dos seus dezassete dezoito anos, esguia e pequena, de sorriso gaiato e uns olhos azuis, aquáticos numa carita magra e tão suja como bonita.
Ora pareceu-me, e bem,  que era uma “habitué”, uma confrade para o jantar, que pagaria em géneros, digamos assim, o ficar com o estômago mais aconchegado, que dali levava pela manhã. Dormia normalmente na carpintaria e o mal amanhado do carpinteiro, estava tão apaixonado que suportava a verdadeira enxurrada venérea que do seu amor brotava. Coisas…. E como era de bom coração partilhava-a a troco de uns cigarritos, ou com quem lhe pagasse uma cerveja ou algo semelhante.
Ainda hoje estou para saber como, mas esta Deusa, conseguiu surripiar não sei onde a chave do meu quarto e já bem para lá da Meia-noite, quando meto a chave à porta para ir dormir na cama que tinha mandado fazer de lavado, acendo a luz e surpresa… A ninfa, esperguiçava-se e dizia ‘tás Fodi…. , agora tens que dormir comigo…. Olhei para ela e disse : Ai tenho???? Sem brusquidão, peguei-he no braço magro e sem a forçar demasiado levei-a para a prisão. Ela quando percebeu o destino que a esperava, tentou soltar-se, sentou-se no chão a espernear que não, que o gajo mais velho é maluco, é um tarado que nunca mais para….. E eu disse-lhe: Vá anda lá que eu depois dou-te uma prenda bonita. Parou de espernear e virou para mim os olhos, do mais doce que os pôde fazer. ‘Tá bem mas se me ouvires gritar. Vens cá buscar-me. Fica descansada, disse. Virei costas e fui dormir. Não dormi grande coisa, a conversa bem regada e “sobrefumada” com o Oficial de dia ainda me batia nas paredes do cérebro.
Era um Capitão de uma Companhia do mato na Guiné, e contou-me de como se fica “xarope”  de todo naquela merda…. Os gajos até nos chamavam pelos nomes. Todo o Santo dia era morteirada que até fervia. Não aguentei fui perdendo malta, que ao fim de várias semanas nisto, não aguentavam e saiam dos abrigos…. Passei-me um dia saltei também para a parada a gritar: Éh cabrões, ‘tou aqui, vá fodan… lá caralh….  E não levei uma saraivada de tiros porque eles não quiseram… Sei lá!!! Então o comando da região mandou-me evacuar e cá estou pá…. Bebeu mais um gole de uísque.  Ali na minha cama o pensamento levemente toldado pela bebida, saltava destas revelações extraordinárias, ao que chagam as pessoas sobre pressão….. Para a coitadinha da cachopa nas mãos daqueles dois esfomeados lanzudos…. Bem eu avisei aquele marado do Jorge ( o do tiro no pé) Se fazes mal à miúda ‘tás feito comigo….
Acordei bem cedo. Molhei a cara e saí  o meu primeiro pensamento foi ir à prisão. Também que raio de ideia que se me havia de meter na cabeça. Cheguei e verifico que aparentemente está tudo bem.  Abri-lhe a porta e ela saiu a correr para a rua que já eram horas. Falei com o Jorge . Então….. Porreiro Furriel…. E o mexicanista, pergunto. Não fez nada Furriel. A miúda foi deitar-se ao pé dele e ele punha-se a chorar. E encarquilhava-se todo. E eu pensei. Perigoso marginal prevaricador…. Só preso….. Santo Deus…. E tu? Âh óh Furriel, “atão” “Pimba”!!!!
Quando sai de serviço fui à rua comprei umas “meias de vidro” e uma colónia.
E estudei um discurso para quando lhos entregasse. Mas desisti. Tê-la como coitada, era uma profissão de fé da minha superioridade em relação a ela, descabida, estúpida, desnecessária. Devia ser o que estava a fazer-lhe mais falta!!
Vou dar-lhe aquilo simplesmente sem mais ró-có-cós, é mais decente, que remédio tenho eu se não  aceitar que ela é aquilo que escolheu ser. Se me causa engulhos .... Problema meu,  ponto.

     

                       António Capucha

      Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Torre e Espada Versus Cachipende

Ordem da Torre e Espada

Das minhas memórias da tropa, fazem parte situações, abundantes situações.... E se umas são de uma gaguez notável, outras houve que me marcaram profundamente. É o desfilar de um pelotão de mariolas e pessoas excepcionais, que de uma maneira ou outra se destacaram da média e nem sempre pela mesma razão. Nem sempre eram “cromos”. Hoje gostaria de vos dar conta de, não um, mas dois destes, destacando-se um por fazer renascer em mim a fé nos homens, e o outro, acentuou o meu desprezo pelos “Chicos Espertos”.
Passa-se tudo num quartel que não hesito em classificar como a tropa mais fandanga que é possível imaginar. Era um quartel em pleno largo da Graça em Lisboa, que era conhecido como Depósito de Indisponíveis. E o que era isso? Era um sitio onde ficavam evacuados, feridos e doentes que pudessem estar em regime de consulta externa e assim desimpedir o Hospital Militar por forma a que este, não entrasse em rotura. Se aquilo não era o ninho de cucos, não sei o que o possa ser!
Houve casos que desencadearam o meu empenhado sentido de humanidade e outros em que me deixei ir na pândega colectiva que era aquela coisa… E outros em que alimentava o mais profundo desprezo pela instituição que tais coisas permitia.
Foi lá que conheci o primeiro exemplo que vos quero levar ao conhecimento.
Ambos na casa de banho manhã cedo, a fazer a barba, eu para entrar de serviço e ele para ir ao Terreiro do paço. Era dia 10 de Junho. De 1973. Eu na minha pequenez escorreita e ele, enorme, um matulão com uma prótese numa perna e a outra, que não dobrava, cheia de cicatrizes, um olho ausente e vendado, enfim, parecia ter saído de uma picadora de carne. E ao passo que escanhoava, ía dizendo entre dentes coisas indecifráveis. E eu pergunto-lhe: desculpe … Disse alguma coisa? E ele riposta: HÂÂ… Estes gajos…. Tenho que ir lá abaixo buscar uma carica…. E continuou a sua lenga-lenga. Eu fui à minha vida ele Há-de ter ido à dele. No dia seguinte vejo no jornal a cena: ele perfilado a receber a “Torre Espada”, nas celebrações que há época o Camões dividia com o dia de Portugal e da raça.(hoje divide com Portugal e as Comunidades) Era então um Capitão dos Comandos e imagino o que terá feito para merecer a “Torre “Espada”. Ouvi dizer que para proteger os seus homens se terá atirado para cima de uma granada de mão. Mito ou verdade sei lá…. Pelo menos sei serem  possíveis actos destes, raros, mas que os houve …. Houve.    
Em oposição a isto coabitava um “jabardolas”, um ser abjecto e desprezível de um 1º Sargento que todos os dias fazia comício a dizer mal destes Cabrões todos. Obrigaram-no a voltar de Angola e fecharam-lhe uma fabriqueta de “Cachipende” (Uma espécie de aguardente feita a partir de açúcar e água) que ele lá tinha…. Ele até só a vendia aos pretos!!!
A tal fabriqueta consistia num telheiro de chapa ondulada debaixo das quais uns bidons de gasolina da tropa, cheios de água e açúcar a fermentar, espalhavam um cheiro nauseabundo. Claro que a destilação, mal controlada, dava uma bebida com mais metano do que devia e daí resultaram muitos problemas sérios de saúde e umas quantas mortes por intoxicação. E o gajo a encher-se alarvemente. E vejam lá a grande injustiça, fecharam-lhe aquilo pá!!!! Por causa de uns pretos!!!! Eles são tantos!!!! É tudo uma cambada!!! Pois será…. Ele é que se achava um menino do coro, um cordeirinho do bom Deus….. Filho da puta!
Acreditem, de cada vez que me lembro deste alarve, sinto náuseas. Mas então lembro o outro estropiado Capitão e restabeleço a confiança na espécie….
Áh….. isto vai …..   


                               António Capucha
            
            Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ceia da consoada

Mesa para a ceia da consoada
Na sala de sobrado de madeira e parca de moveis, a mesa grande e rectangular de carvalho, está posta. Sobre uma toalha de linho bordado, estão postos os pratos da faiança mais fina que há em casa. Loiça de Vista Alegre, e o serviço de copos que foi prenda de casamento. Cristal com entalhes e um fio dourado junto ao bordo. São quatro, como mandam estas coisas. Um para a água, outro para o vinho branco, ao lado do vinho tinto. Estes diferem apenas no tamanho, pois são em tudo semelhantes e estão colocados em escadinha do mais alto para o mais baixo e da esquerda para a direita. A taça para o champanhe, esta, com bordo de diâmetro largo e porte atarracado, se bem que com a inevitável linha de ouro junto ao bordo. Este é que difere, mas fica bem no conjunto. Os talheres rebrilham de terem sido polidos e esfregados com palha d’aço, até reflectirem as parcas luzes dos candeeiros de petróleo de chaminés impecavelmente limpas com papel de jornal.
No centro da mesa uma terrina com sopa fumegante que esteve toda a tarde a ferver na lareira na panela de ferro forjado de tripé. Um naco de toucinho, uns “feijões frade da cara verde” umas batatas uma cebola, alho e couves e outras hortaliças fresquinhas da horta do quintal. Sobre a mesa fica ali a martirizar-nos os narizes, até que todos estejam sentados. E o Avô José Vaz, faça a oração, até ao amem, esse é  a “password” para o início da refeição. Ao lado da terrina está uma travessa com “criadilhas” (uma espécie de cogumelos saborosíssimos) mexidas com ovos dos galináceos da enorme capoeira do quintal. A travessa é do mesmo serviço dos pratos e só vê a luz do dia, neste caso: dos candeeiros, em dias assim. No topo da mesa em frente ao patriarca, um cesto de verga com um guardanapo de linho está um pão enorme que foi cozido no forno comunitário um pouco mais abaixo na mesma rua…. A faca para o pão de cabo de madeira nas mãos do avô, corta fatias de diversos tamanhos que deixa no cesto. Não dá para esquecer o som da faca a cortar a grossa côdea ainda estaladiça, um som seco que cheira a pão….
Do outro lado da terrina está, num tabuleiro de barro de ir ao forno, um galo capão assado na lentidão das tardes de inverno bem ao fundo do forno, enquanto mais à borda o pão coze mais lesto….
Junto a ele numa tigela de barro com desenhos de flores, um puré de batata de que ainda lhe sinto o gosto. Feito com leite de cabra e com manteiga que o meu avô batia e virava todos os dias quando chegava dos seus afazeres lá no campo.
Num móvel por detrás de mim estavam as sobremesas, compotas diversas, uvas passas ainda em cacho, figos secos da enorme figueira do quintal, amêndoas da Tapada Nova, nozes da Mingrocha e um tabuleiro redondo com uma garrafa estilizada de vinho generoso e cálices do mesmo serviço dos copos com honras de mesa.
A compor o ramalhete ainda sobre o móvel dos doces, repousava um bolo acastanhado a rescender a canela, cravinho, rosmaninho e sei lá o quê mais. Não tinha açúcar. Era feito com mel e a gordura era o azeite e um pouco de manteiga. Não tinha nenhum nome em especial… Era o bolo….
Um grande alguidar em barro pintado com cenas de trabalho no campo, estava até acima de filhós fritas até à hora de ir para a mesa. Com laranja e um toque de bagaço. A massa era batida com vigor por braços de trabalho, nus, femininos, e depois da sova repousava, abafada com cobertores, levedava  durante um dia inteiro, depois estendia-se com o “rolo da massa” cortava-se, esticava-se entre os dedos de ambas as mãos, e fritava-se em cânticos ao menino Jesus, à noite do caramelo e por aí adiante, para que a fervura não encruasse quem estivesse na cozinha tinha que cantar uma quadra.
Ah é verdade faltam os borrachões. É o bolo com o nome mais sugestivo de todos. Trata-se de um biscoito de canela e aguardente, esta, em quantidade que não envergonhe….. São magníficos, e a sua travessa lá estava para ajudar à festa. E as broas meias luas pequenas e secas com muita erva doce, e durinhas para que aguentem tanto quanto possível no saco de pano de linho do “armário dos tormentos” contíguo à cozinha…
Depois da ceia íamos à missa do Galo, coisa que me divertia imenso, porque o Padre, um sujeito amplo e de sorriso fácil debitava a coisa num latim que era só dele, por que era um pouco “trogalho” de fala. Depois voltávamos a casa e os crescidos, agora todos os meus tios e tias atiravam-se aos licores e aos borrachões e nós tínhamos que ir para a cama que era tarde…  Uma filhó filada à surrelfa, mais uns borrachões  e ala, encher a cama de migalhas….
Ainda estão com fome? Eu por mim já estou cheio….. Cheio de saudades, pelo menos!
     

                                António Capucha

            Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Natal

Exemplo de Presépio




Para que conste, tenho memórias ainda bem vivas do Natal tradicional de inevitáveis contornos religiosos, mas que não deixa de conter alguns resquícios das festividades pagãs dos nossos ancestrais….
Estou portanto em posição de opinar acerca das diferenças e aquilatar da qualidade humana e social de um,  e compará-lo com este outro Natal, que nos tem vindo a ser habilmente imposto: O Natal da Coca  Cola /Nórdico/Cristão….
E há diferenças em relação a quase tudo, a começar logo no calendário.
O lado Cristão desta festa começava na véspera do dia 25 de Dezembro, data em que alegadamente Jesus menino terá nascido. A sua expressão máxima é a Missa do Galo à meia noite de 24 para 25, que tem uma liturgia específica alusiva à circunstancia da natividade e toda aquela colateralidade da família (sagrada família), mais os pormenores fantásticos que têm a ver sobretudo com a maternidade virgem, dogma de pureza portanto de santidade. Para tal as peripécias são deveras mais do domínio do fantástico, de permeio com alguma veracidade histórica….
Este Natal religioso conviveu desde os tempos antigos até há bem pouco tempo, com as festas pagãs do solstício de Inverno, bem menos erudito e romanceado que este. Como todas, ou quase todas, as manifestações sóciais anteriores à cristandade, tinham a ver com as preocupações dominantes dos humanos, cujos, na ausência de outros valores culturais mais avançados, que tinham a ver com a sobrevivência das pessoas. Assim os rituais destas “proto-religiôes” celebravam a fecundidade e a abundância de alimentação. Sendo que por fecundidade se entendia a das fêmeas tanto humanas, como dos animais domésticos de que dependiam em boa medida, e a da terra fecunda, à qual se deitavam as sementes. Esta celebração do solstício de Inverno ao contrário da do Verão mais exuberante, era celebrada no recato aconchegado das habitações, o que favorecia o espírito de família, ainda incipiente, o espírito de grupo, ou consciência tribal…. A sua expressão era a partilha espontânea da comida e dos prazeres comuns mais diversos, por assim dizer….. Estes aspectos foram evoluindo naturalmente até hoje perdendo a parte mais animalesca da coisa e acentuando os aspectos rituais de integração e de família, esta já interpenetrada pela doutrina e moral cristãs, como é exemplificado na simbologia do presépio…. Mantém-se no entanto o aspecto da partilha dos alimentos, que são vitualhas de estalo. Toda a gente aprimora o receituário gastronómico.
Actores destas coisas são os diversos fritos, filhós à cabeça, mas há dezenas de coisas de fazer babar o menos lambão. Cuscurões, fritos de abóbora, rabanadas, fatias de parida, azevias, o incontornável pão, enchidos e queijos…. Sei lá que mais…. E o protagonista é o vinho novo, cujo há-de escorrer como um rio pelas goelas de todos. Claro que o prato de substância variava de região para região e até, de terra para terra, consoante os seus hábitos e haveres. O que por exemplo faz espécie, é que o prato de base em Trás-os-Montes seja o polvo cozido.... E esta hein!!!

Filhós

Manda a tradição que as famílias se visitem e ofereçam, uns aos outros, o que de melhor têm. Da fusão com o Natal da S. Madre, resulta, para além da já referida Missa do Galo, que o Padre lidera esta procissão entre as casas dos paroquianos, onde, para além de tentar manter-se de pé e sem oscilar demasiado, vai distribuindo bênçãos e elogios aos preparos alimentícios… Claro que o Padre não vai só nesta excursão degustativa. É precedido de gaiatos a tocar sinetas, mais o sacristão e o grupo vai engrossando à medida que o vinho escorre. Chegam a estar mais de trinta pessoas numa casa, uma intensa actividade comunitária…. O que vale aos anfitriões é que todos trazem oferendas…. Eu muito miúdo ainda participei nestas excursões que ainda subsistiam nas Aldeias do interior. Nestas regiões o dia de Reis, a 6 de Janeiro, é o dia de se trocarem prendas. A igreja atenta ao fenómeno inventou a prenda no sapatinho do Menino Jesus…. E cantam-se as Janeiras, músicas populares cantadas em grupo de casa em casa. Fortemente interpenetradas de moral e doutrina cristã, tanto quanto de vinho para aclarar a voz, mas à quais (às quadras das Janeiras) nunca faltava uma certa brejeirice…

"Arvem" de Natal


Pai natal- Papai noel- Santa Clauss etc...



Nas regiões mais “desenvolvidas”, já tinha desaparecido, substituído pelo tal Natal (não confundir com o tal Canal) da Coca Cola e do Pai Natal. Continua a ser a família o valor base da coisa, mas não há misturas com os vizinhos. A comunidade aqui começa no pai e acaba no filho mais novo…
Esmiuçando a coisa e falando bem e depressa este natal manda isto tudo às urtigas e promove o individualismo e o consumismo a níveis absolutamente doentios. Os presentes que se dão em dia de reis, nesta versão vesga, começam logo em finais de Outubro, e terminam quando o pessoal já está completamente teso e com os “plafons” de crédito esgotados. Fruta da época!!!!
Então, e isso também cabe na natureza humana, inventaram-se coisas apenas por estratégia comercial. Ou imitaram-se outras dos “Amaricanos” e Nórdicos europeus…. Lado a lado olham-se de soslaio o pequeno presépio e a imponente e vistosa árvore de Natal. (a mais das vezes, apenas PIMBA…) Ao passo que mastigamos a ave mais endémica da região, que como se sabe: é o peru, e viramos o bolo Rei e as lampreias, os troncos e outras patacoadas de super-mercado….. Além do tradissionalíssimo peru assado no forno, as prendas deixaram de ser trocadas entre todos, ou ainda que fantástico, metidas pelo menino Jesus no sapatinho, são trazidas agora pelo Pai Natal, que desce pela chaminé. Uma personagem supostamente nórdica da Lapónia, num trenó puxado por renas, que até têm nome e tudo…. Mas, o diabo é que gato escondido……. Pois é….. Este velhote de ar saudável e simpático foi criado pela Coca Cola…. E a Coca Cola tê-lo-há decalcado de uma outra personagem que foi um arregimentador (o antecessor do Tio Sam) de mancebos para a tropa na altura em que os “Amaricanos”  estavam em guerra, cuja fisionomia era a mesma. Os mesmos óculinhos, o mesmo sorriso, o mesmíssimo ventre inchado, e o cabelo e barba branca crescidas. Resta acrescentar que era o maior dos angariadores de rapazes para a tropa e era extremamente popular. Daí a Coca Cola ter ido buscar a sua imagem para a operação de Markting de meados do século passado. Claro que vender refrigerantes é igual a vender seja lá o que for, logo aquela figura transitou para Pai Natal, e em função disso criou-se uma verdadeira cultura…. Claro, de consumismo….
As janeiras foram também substituídas pela estridência dos sininhos do trenó e uns estúpidos corais e vozes tipo Bob Hope, a dizerem bacoradas na sua língua de trapos.
Este Natal é tão poderoso que até foi inventado um subsídio pecuniário, dito de décimo terceiro mês, ou subsídio de Natal, para podermos dar combustível a esta enorme fornalha que é o Natal moderno e cosmopolita…. Este dito subsídio, é assim e portanto, uma espécie de toma lá , dá cá!  
O mais espantoso de tudo é que nesta altura do Natal, somos sempre tocados por uma espécie de calor suplementar. De ternura e humanidade……
Vá lá saber-se porquê!
Ficam aqui ditas estas verdades. Cada um que diga de sua justiça.


                         António Capucha

     Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Na praia da Nazaré… Ninguém pode andar em pé

praia da Nazaré


Uma imagem que gravei, e peguei, com cola que pega cientistas ao tecto, e cá ficou, e ficará, até que o Sr. Alemão (Alzeimer) tome conta de mim. Ou quando a energia for desligada e os neurónios se forem apagando progressivamente, como as luzes de uma árvore de Natal. Ficará esta presente com toda a informação que pude reter com os meus sentidos poderosíssimos de criança com pouco mais de quatro, cinco anos.
Estava eu de férias com a família na Nazaré. Uma praia como não há outra. Uma verdadeira escola de coisas, desde os naufrágios de “bateiras” de pesca, ao puxar das redes à mão até ao retirar dos barcos que rolavam para terra em cima de troncos redondos que iam sendo postos adiante dele e por debaixo da quilha, até terra seca. Esta tarefa era feita por juntas de bois. De tudo isto assisti, ao longo dos anos em número apreciável. Mas Aquela coisa supera tudo…. Mesmo a impressionante imagem das mulheres de xailes negros pela cabeça, num berreiro desesperado pelos seus maridos, pais e irmãos joguetes das ondas e do mar cruel e vingativo, como um Deus Grego, por terem logrado tirar-lhe a sua prata (as sardinhas) e outros tesouros.  E o regabofe de puxar as redes. Só estando lá…. As vozes de comando dos homens: Hei-Hô…. Hei-Hô…. Hei-Hô…. Numa espécie de jogo da corda com o mar…. O segredo era vir um pouco mais cá, quando o mar vinha. E resistir de pés fincados quando ele ia p’ra lá. O peso das redes era sempre um bom presságio ainda que dificultasse tudo….

Juntas de bois a puxarem uma embarcação
Puxar as redes




Muitas coisas fui sorvendo do lugar, pese embora a pouca idade. Mas esta, que vos vou contar, é que me encheu as medidas: Foi a queda de um avião mesmo à frente dos olhos a poucos metros da rebentação do mar. Um espanto. Só mesmo na Nazaré….
A praia estava cheia de banhistas, quando vindo de Norte, do Sitio,(onde a tal Senhora gosta que lhe façam festas  dos Círios. Sabem o que são? Informen-se...) 
O ruído de um motor foi crescendo e quando apareceu imponente como um grifo, todos vimos a asa  direita bater num varão de ferro do miradouro do Sitio, e estilhaçar-se toda. A aeronave descreveu um mergulho curvo em pirueta sobre o seu lado direito e mergulhou na água do mar imenso. Juntem a isto tudo os efeitos sonoros e o quadro começa a compor-se.
O avião (ou o que restava dele) estava nos dias seguintes nas areias finas cercado por uma corda e guardado por militares… Tratava-se de um herança  dos amigos alemães do António, o outro, e com a sua chapa ondulada e pintura verde azeitona.

 
Junkers W 34

Sem a cruz que a amostra ostenta e numa amalgama disforme, que nunca associei a desastre e morte (que é evidente ocorreram). Aquilo para mim passou a ser a estética associada ao barulho de ferros torcidos do embater de asa e a sequente queda e o ruído típico de aceleração do motor a percorrer a fatal elipse direita ao oceano e o enorme Shuááaá do mergulho…. Ali tão perto… Então à coca ouvia os comentários dos adultos muito preocupados com a eventualidade de o avião bater com a outra asa, porque assim em vez de mergulhar no mar caía na praia e então seria pior para todos… Esta mania dos adultos virem sempre com eventualidades… E eu que até era uma criança espantadiça, nunca a coisa me impressionou negativamente… Para mim foi o filme perfeito um perfeito acordo entre sons e imagens… Irrepreensivel, o choque, a elipse e o mergulho fisicamente perfeitos  e os restos do avião eram um monumento a esse espectáculo….. Simples, não é????

                       António Capucha

    Vila Franca de Xira, Dezembro de 2010