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Madragoa |
Na tasca da esquina onde debicam dois galos çó-cós à solta, que lá vão gerindo as investidas dos gatos. Mas quando a coisa empina, num voo rápido empoleiram-se na trave de carvalho da adega, e…. Assunto arrumado.
Na mesa do canto com um banco corrido de cada lado, está como é hábito o Constantino. E também como é habitual, não come nem bebe nada. Mas ri de orelha a orelha quando os homens entram e o cumprimentam segundo um ritual que há-de ter a idade dele, menos os vinte anos que levou a ficar homem e a poder ir para a taberna do Narciso. Ora o Constantino para que conste, não era um tipo normal. Quis a imponderabilidade destas coisas que nascesse deficiente. Tinha pouco mais que um metro de altura, mas não era anão. Se não houvesse com que lhe comparar a altura não se percebia a sua pequenez, já que era bastante bem proporcionado. Usava uns óculos garrafais de tartaruga sustidos por uma narigueta de respeito. Assim do tipo do gnômon de um relógio de Sol
A sua cara de barba muito cerrada e rapada, dava-lhe um tom cinzento, fazia lembrar as gravuras do El Mano (Bocage).
Porque não havia motivos para que assim não fosse, a sua expressão era um eterno e imutável sorriso. O pior de tudo é que todas estas anomalias eram acompanhadas de um evidente atraso mental. No bairro ninguém o incomodava por prazer, ou isso assim, não era o tontinho lá do sitio, e levavam pouco à paciência que alguém fizesse pouco dele ou o molestasse.
Claro que, sem que isso constituísse chacota, o Constantino fazia parte de alguns jogos, que longe de o incomodar até o faziam rir, e quer se queira quer não, ainda que neste caso, rir fosse uma cãibra da Alma, é melhor rir que chorar…. Aliás a brincadeira tem o seu quê, e algo que se lhe diga…. Provavelmente a coisa teve origem fortuita, e foi-se cimentando e apurando as cambiantes ao longo do tempo…. Seja como for o Constantino estava absolutamente convencido de que dava choque…. Dos eléctricos estão a ver…..
Então toda a matula lá do bairro quando chegava a qualquer lado onde estivesse o Constantino, cumprimentava a geral: Pessoal !!! e estendia a mão ao Constantino mas logo a recolhia e amedrontado perguntava: É pá “Costantino” …. Estás desligado???? Ele respondia maroto: ‘tou, ‘tou…. E o outro confiante dava-lhe o bacalhau… Mas logo de um salto retirava mão e dizia por entre esgares de dor: É pá “Costantino” pá!!!!! Enganaste-me….Afinal pá!!!! Estavas ligado pá…..
O outro ria até sufocar, um riso de boca escancarada sem vergonhas nem culpas ou desculpas, no seu universo de proto-felicidade. Que apenas as crianças e eles têm….
Eu da primeira vez que estive com ele presente, foi na tasca do Narciso, trabalhava ali perto na antiga Emissora Nacional à rua do Quelhas, e calhou ir lá lanchar. Como é normal ,e aprendi a fazer, cumprimentei as pessoas presentes, e eis senão quando, o bom do Constantino se chega a mim de mão estendida. Diz logo um rapagão que beberricava ao balcão: Olha lá óh “Costantino” vê lá o que vais fazer ao homem???!! Atarantado foi a minha vez de sorrir com um daqueles sorrisos lorpas de quem foi apanhado numa das curvas das coisas. O calmeirão prossegue então: Então não vê o senhor que aqui o “Costantino” dá choques, o malandro. Vá lá Costantino” desliga-te lá para cumprimentar o Homem. Recuperei o domínio de mim, pois receava ter cometido alguma gafe protocolar….. e estendi-lhe a mão enquanto perguntava: você está desligado? ‘Tou, ‘tou. Então com um sorriso seguro aperto-lhe a mão e faço a rábula de ter sido atingido pela raiva de Zeus…. O resto é sabido o gargalhar inocente do homenzinho e a felicidade geral por se ter cumprido o ritual bairrista….
As sandes de torresmos eram soberbas e o vinho era verde do pipo, da terra do Narciso…. Fiquei ainda uma boa meia hora à conversa com os operários do Alfeite…. As ex varinas agora esposas mães e donas de casa passavam disfarçadamente à porta e deitavam o olho para controlar os seus manjericos, não fossem aparecer-lhes em casa a cantar o Tiroliro….
Um dia normal….
António Capucha
Vila Franca de Xira, Novembro de 2010
PS – Dedico este conto aos meus colegas de profissão que são da Madragoa. Ao Jorge Mendes, ao Jaime Silva, o Alcides e outros entretanto já falecidos, mas não esquecidos, Alvarez, Sarafim Matos (o olhinhos) etc…etc…
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